
Redação: Política e Resenha
Vitória da Conquista — A engrenagem que movimenta a saúde baiana tem um brilho que raramente chega à superfície. Por trás de contratos bilionários, sedes climatizadas e balanços que impressionam, esconde-se um sistema que funciona à custa da precarização de quem deveria ser a coluna vertebral do atendimento hospitalar: os profissionais da enfermagem.
A reportagem ouviu técnicos e enfermeiros que atuam sob regime de cooperativas em unidades públicas, filantrópicas e em domicílios com as Home Care. Todos solicitaram anonimato por medo de retaliação — e isso, por si só, já revela muito. “Se falar, você está fora da escala. E sem escala você não come”, relata uma técnica com 12 anos de profissão.
O modelo que se vende como solução — mas serve ao capital
Cooperativas surgiram, teoricamente, como alternativa para democratizar renda e garantir autonomia trabalhista. Mas, na prática, o que se observa na Bahia é um desvio de finalidade. Elas se converteram em atravessadoras que ocupam o lugar do Estado na gestão de pessoal. Ganham contratos milionários e repassam aos trabalhadores apenas fragmentos desse valor.
Um exemplo confirmado pela reportagem é que os profissionais não sabem quanto os planos de saúde ou governos pelos seus serviços. O certo é que entre taxas administrativas, gestores terceirizados e um sistema opaco, ninguém consegue auditar.
Precarização institucionalizada
Nenhuma garantia trabalhista. Nenhum décimo terceiro. Nenhuma férias. Nenhuma estabilidade. Em troca, plantões exaustivos, pagamentos atrasados e a constante ameaça de substituição por outro profissional desesperado.
“Você é um número. Se reclamar, entra outro no seu lugar”, lamenta um técnico que atua em três cooperativas diferentes apenas para pagar as contas.
O piso salarial que nunca chega
Quando o piso nacional da enfermagem foi aprovado, muitos acreditaram que finalmente haveria justiça. O que aconteceu foi o oposto: cooperativas passaram a substituir contratos CLT por contratos precários, alegando incapacidade financeira para pagar o piso — enquanto faturavam cifras milionárias.
Assim, estruturas criadas para democratizar trabalho transformaram-se em escudo corporativo para proteger o capital da Saúde e blindar o poder público da responsabilidade por concursos e vínculos empregatícios.
A população também perde
O dano não é apenas humano — é estrutural. Equipes instáveis, profissionais exaustos e alta rotatividade comprometem diretamente o atendimento ao paciente. A saúde pública paga caro e recebe pouco, enquanto o cidadão percebe o impacto na demora, no descaso e no risco à vida.
O silêncio conveniente
Todos sabem: secretarias, gestores, diretores hospitalares e cooperativas movimentam uma cadeia de interesses. E é justamente por isso que concursos públicos não avançam. O modelo atual é mais caro, menos eficiente — porém politicamente conveniente.
O que especialistas defendem
- concurso público com carreira estruturada
• remuneração compatível com a formação técnica
• fiscalização financeira transparente das cooperativas
• punição legal para organizações que deturpam o modelo cooperativo
Sem isso, a Bahia continuará assistindo a profissionais salvarem vidas enquanto lutam para sobreviver.
A sociedade precisa entender que essa não é uma luta isolada de uma categoria — é uma luta pela vida.
Quando a enfermagem é explorada, todo o sistema de saúde adoece.




