Política e Resenha

ARTIGO – O Estado sitiado e a democracia sequestrada

 

 

(Padre Carlos)

 

Vocês são testemunhas — e ninguém pode negar — das denúncias contundentes que fiz contra a chacina ocorrida no Rio de Janeiro. Não hesitei em erguer a voz diante da barbárie, da brutalidade policial e da lógica cruel que transforma corpos periféricos em alvos descartáveis. Mas nunca confundam minha indignação com cumplicidade. Denunciar a violência do Estado não significa fechar os olhos para o crime organizado. Defender direitos humanos não me coloca ao lado de facções criminosas; pelo contrário, sempre lutei para que o Estado brasileiro retomasse a dignidade de governar seu próprio território, sem permitir que os fuzis privatizem a vida.

A crise da segurança pública não é mais um debate acadêmico ou ideológico — ela é um fato que esmigalha a soberania nacional. Quando auditores fiscais, técnicos de concessionárias, inspetores e agentes públicos precisam de autorização informal de criminosos para entrar em áreas controladas por facções, a ruptura institucional já aconteceu. Não se trata de exagero narrativo. É domínio territorial puro e simples. Onde o crime manda, o Estado pede licença. E quando o Estado pede licença, a democracia vira refém.

O crime organizado aprendeu a fazer política pela força. As milícias, o PCC, o Comando Vermelho e tantas outras facções operam como empresas, como governos paralelos, como sistemas de poder que cobram taxas, mantêm serviços, regulam a economia informal e controlam a circulação de pessoas. O território deixou de ser público — tornou-se propriedade privada de grupos armados. Essa violência urbana não é episódica: ela molda a vida social, a economia e até a cultura política. É impossível falar de cidadania quando um morador não pode solicitar um reparo de energia ou denunciar um furto de internet porque sabe que está pedindo para morrer.

O Estado brasileiro parece ter aceitado perder terreno. E essa é a pior das derrotas: a derrota silenciosa. A derrota que se normaliza nas manchetes, na fala dos governantes, na resignação da população. O Brasil caminha para uma geografia desigual de direitos — regiões onde a lei vale e regiões onde a lei não entra. Para alguns, existem garantias constitucionais; para outros, só resta sobrevivência. E quando a vida se reduz à sobrevivência, a democracia parou de existir.

Eu não comemoro operações espetaculares que duram dois dias e desaparecem três dias depois. Não me iludo com discursos duros que evaporam na primeira rodada de negociações políticas. O crime organizado não teme o Estado porque aprendeu que o Estado negocia. E onde o Estado negocia à sombra do fuzil, quem governa é o crime. Quem dita as regras não é o povo.

O Brasil precisa assumir a verdade incômoda: a democracia não está ameaçada apenas por fanáticos políticos ou golpistas de ocasião, mas por um poder paralelo armado que construiu raízes, logística, rotas e governança. Ceder território às facções criminosas é ceder o futuro. E não há projeto de país possível quando o mapa nacional é dividido entre zonas livres e zonas proibidas.

Eu denunciei a chacina porque me recuso a aceitar que o Estado mate para se afirmar. Mas também denuncio, com a mesma força, quando o Estado se rende para sobreviver. A violência de cima e a violência de baixo não se anulam — ambas destroem. Ambas sangram o povo. Ambas corroem a democracia.

Se o Brasil não recuperar seus territórios, seus bairros, seus becos, suas fronteiras, suas vielas, suas montanhas, seus rios e suas comunidades, não recuperará sua própria alma. Um país que tem medo de entrar no próprio país está morrendo de dentro para fora.

O crime organizado cresce quando o Estado recua.
A democracia cai quando o crime governa.
E nós — se ficarmos calados — teremos feito parte da derrota.