

(Padre Carlos)
Há ditados populares que sobrevivem aos séculos porque descrevem com precisão cirúrgica a natureza humana. “Agora Inês é morta” — eco do amor trágico de Pedro e Inês de Castro — simboliza aquilo que só se percebe quando já não há retorno. E é exatamente isso que assombra o governador do Distrito Federal: quando o estrago já está feito, o arrependimento chega tarde demais.
O escândalo financeiro do Banco Master não é um acidente administrativo. É um terremoto político, um rombo econômico, e principalmente um retrato cruel da promiscuidade entre poder, negócios e interesses privados. O governador Ibaneis Rocha tenta limpar as mãos: afastou Paulo Henrique Costa da presidência do BRB e colocou Celso Eloi de Souza Carvalheiro em seu lugar. Mas aqui cabe a pergunta que ecoa nos corredores do DF e do Brasil: quem nomeou Paulo Henrique Costa? Quem o escolheu para controlar um dos maiores cofres públicos do país?
Quando se ocupa o cargo mais alto do Executivo, responsabilidade não é terceirizável. O governador não pode se fazer de Pedro arrependido diante do corpo político de Inês. Ele viu os riscos. Ele foi alertado. E mesmo assim pagou para ver. Agora, o resultado está estampado no país inteiro.
O fio desse novelo é sujo e antigo. O nome José Roberto Arruda — outrora condenado por improbidade administrativa — reaparece através de laços familiares e políticos com Paulo Henrique Costa, marido da ex-deputada Flávia Arruda. É impressionante como os personagens da extrema-direita, do bolsonarismo e do submundo político ressuscitam com facilidade, como se o Brasil fosse cativo de uma trama sem fim.
Mas a teia é maior. Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, não chegou longe na força do acaso. Ele circula com Ciro Nogueira, Arthur Lira, Antônio Rueda, e com o apoio desse cartel político abriu caminho para caixas de pensão estaduais, prefeituras e até fundos públicos de segurança e previdência. Do Rio de Janeiro a São Paulo, do Amapá ao interior do Brasil, o dinheiro público foi sugado em uma operação que teria feito PC Farias, Eduardo Cunha e os barões da Lava Jato ficarem com inveja.
Cláudio Castro, Tarcísio, Zema, Ratinho, Jorginho Melo, Ibaneis, Eduardo Leite e o governador de Goiás estão até o pescoço nessa lama. Muitos tentaram blindar, proteger, esconder, deslocar e até tirar do país os envolvidos, assim como já fizeram com Alexandre Ramagem, agora fugitivo da própria impunidade. Mas a PF — que não foi capturada pelo governo anterior — segue rastreando cada conexão, cada telefonema, cada conta no exterior.
O contraste é inevitável: enquanto o governo Lula acumula avanços econômicos e diplomáticos, a extrema-direita coleciona escândalos, prisões, fugas e delações iminentes. A queda das taxações impostas por Donald Trump, que deveria ser uma bandeira política da direita brasileira, virou na prática um parafuso a mais no caixão do bolsonarismo, e aproximou o sistema financeiro internacional do cerco jurídico sobre os patrimônios suspeitos da família Bolsonaro e seus aliados.
O país inteiro sabe o que está por vir. Quando Daniel Vorcaro abrir a boca — porque ele vai abrir — a Câmara pode desmoronar como um castelo de cartas. Nenhum mito sobrevive à luz. Nenhuma farsa sobrevive à verdade.
E por isso repito:
agora Inês é morta, governador.
A pergunta que Brasília e o Brasil querem respondida não é se o senhor vai afastar nomes.
É qual o grau da sua responsabilidade ao colocá-los lá.
E o país espera — e exige — a verdade.




