Política e Resenha

ARTIGO – A Defesa Tenta Defender o Indefensável: Quando a Retórica Afronta os Fatos (Padre Carlos)

 

 

 

O debate público brasileiro está novamente diante de um espetáculo que desafia a lógica, a inteligência coletiva e o Estado de Direito. O episódio envolvendo a violação da tornozeleira eletrônica pelo ex-presidente Jair Bolsonaro deixou de ser uma questão meramente jurídica para se tornar mais um capítulo do desgaste institucional e da tentativa desesperada de transformar culpabilidade em heroísmo político — estratégia velha, mas ainda eficaz entre os convertidos ao fanatismo ideológico.

A defesa afirma que a tornozeleira seria uma “pena infamante”, o “símbolo da humilhação”, e insiste que não haveria necessidade de monitoramento porque Bolsonaro tem escolta 24 horas por dia diante de sua residência. Mas esse raciocínio parte de uma premissa falha: o problema não é a presença da escolta, e sim o ato de violar uma ordem judicial — algo que, em qualquer democracia séria, configura tentativa de driblar o sistema de justiça.

Tentar transformar a violação da tornozeleira em um ato político — ou pior, em um mecanismo de vitimização — não resiste ao mínimo de ética republicana. O monitoramento eletrônico não é um símbolo de humilhação, é um dispositivo legal. O que humilha qualquer cidadão não é uma tornozeleira, mas a escolha pessoal de desafiar a lei. A tornozeleira não envergonha ninguém; o ato de violá-la, sim.

Quando a defesa diz que “não haveria como fugir”, parece querer negar o óbvio:
qualquer tentativa de romper o mecanismo de vigilância já é, por si só, uma forma de fuga.
Quem tenta apagar o rastro não demonstra inocência — demonstra intenção.

A insistência em sustentar o insustentável revela uma estratégia mais ampla: desacreditar a Justiça, desqualificar instituições e fortalecer a narrativa de perseguição política. É o mesmo roteiro que vimos em casos de corrupção, escândalos financeiros e ataques às urnas eletrônicas. Tudo se transforma em cruzada ideológica, nunca em responsabilidade individual.

E aqui entra o ponto fundamental:
ninguém — por maior que seja sua popularidade, seu passado ou sua biografia — está acima da lei.
Quando a defesa busca transformar uma infração penal em um espetáculo dramático para mobilizar militantes, o que está em jogo não é o direito de um réu, mas a saúde das instituições democráticas.

No fim das contas, o que assistimos é a velha tentativa de inverter os papéis: o acusado tenta virar vítima, e o Estado tenta ser retratado como vilão. Mas a democracia só permanece de pé quando os fatos prevalecem sobre as narrativas, quando a lei vale para todos, quando a Justiça não cede ao grito da plateia.

A tornozeleira pode até ser retirada um dia.
Mas as marcas deixadas no Estado de Direito por quem tenta escapar de suas responsabilidades continuarão gravadas na memória do país.