
Padre Carlos
O Brasil é um país de memória curta, mas de consequências longas. Quando o senador Otto Alencar comenta a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, ele não está apenas avaliando um fato presente — está reconstruindo a linha do tempo das nossas feridas institucionais. Há quem se incomode quando um político diz a verdade, mas Otto vai direto ao ponto: no Brasil democrático, ninguém que erra pode escapar ileso. E isso não é vingança — é maturidade institucional.
Desde a redemocratização, nossa jovem democracia vem testando seus limites. Em apenas 35 anos, já vimos um ex-presidente sofrer impeachment e ser condenado; um outro ser preso de maneira injusta e revogada; outro ser detido pela Lava Jato em uma operação quase cinematográfica; e agora — como consequência inevitável de seus atos — temos Bolsonaro encarando a prisão. A diferença, porém, grita aos ouvidos: enquanto Lula caiu sem provas consistentes e Collor enfrentou um processo controverso, Bolsonaro cavou sua própria cova política em praça pública.
E ninguém precisa de pós-doutorado em Ciência Política para lembrar como isso começou. Durante a pandemia, quando o país chorava, ele debochava. Quando médicos lutavam, ele imitava um paciente com falta de ar. Quando famílias procuravam vacina, ele dizia que “não era coveiro”. A guerra contra a ciência, contra a empatia e contra a racionalidade custou vidas — e não foram poucas. Não existe escudo moral, imunidade política ou blindagem midiática que resista a tamanha irresponsabilidade histórica.
Por isso Otto Alencar soa incômodo: ele verbaliza o óbvio que muitos fingem não ver. A prisão de Bolsonaro não é perseguição — é consequência. Não é golpe — é Estado de Direito. Não é vendeta petista — é o resultado de erros sucessivos cometidos por quem acreditou estar acima da lei, da Constituição e do básico senso de humanidade.
Democracia não se consolida quando protege poderosos — mas quando os pune quando eles ferem o país. E, se existe algum progresso institucional digno de nota, é justamente este: a cadeira presidencial não é mais carta branca para crimes e absurdos. A democracia brasileira, tão ultrajada, finalmente está aprendendo a se defender.
Bolsonaro está onde está não por política — mas por seus próprios atos. E nisso Otto Alencar está rigorosamente certo.




