
A escolha de Lula de um jurista terrivelmente legalista e alinhado às pautas do povo provocou uma fissura evidente no condomínio do poder. Há setores da elite política e econômica brasileira que nunca aceitaram que a Suprema Corte seja um instrumento de justiça — querem uma Corte que lhes sirva, não que sirva ao país. E quando percebem que podem perder esse monopólio, o desespero se instala.
Os donos do Brasil, os eternos herdeiros do Estado patrimonialista, já mostraram seu incômodo. A lógica deles é conhecida: quem manda são eles, quem julga são eles, quem decide os destinos da República são eles. Qualquer indicação que ameace essa estrutura é tratada como um ataque ao “direito natural” da elite de governar o país nos bastidores.
Pagamos caro, muito caro, por escolhas mal feitas no passado. E não adianta dourar a pílula: a esquerda também falhou. Fux foi um desses equívocos monumentais que custaram caro ao país e à democracia. A lição foi dura — e parece que, enfim, aprendida.
A atual indicação para o STF que coloca no topo da Justiça um jurista com compromisso legalista e sensibilidade social reabriu a guerra. Quem sempre se beneficiou da insegurança jurídica sabe que agora a farra pode acabar. E é por isso que reagem com cinismo, chantagem política e mobilização das sombras.
Enquanto a Suprema Corte vira palco da disputa, outro movimento tenta sufocar o governo: a tal da “pauta-bomba”. Numa reação imediata ao anúncio de Jorge Messias para o STF, o Senado, sob o comando de Davi Alcolumbre, decidiu votar um projeto que beneficia agentes de saúde. O problema não é o benefício — que é justo — mas sim o uso estratégico do poder legislativo como instrumento de pressão e retaliação.
A mensagem é clara: quem manda é o Senado, quem manda é o sistema, quem manda é a velha elite que não aceita perder o controle do Brasil.
Mas não podemos viver eternamente reféns dos que se acham donos do País. O Brasil não pertence a castas, corporações ou oligarquias. O Brasil é do seu povo.
A vaga no STF não pode ser moeda de troca, nem instrumento de chantagem. Precisa ser espaço de equilíbrio institucional, proteção da democracia e garantia dos direitos civis. A Constituição não foi escrita para garantir os privilégios dos poderosos, mas para assegurar a liberdade do cidadão comum.
O momento não é de submissão — é de ruptura.
Não podemos permitir que, mais uma vez, a história repita os erros que já pagamos com sangue, com miséria e com retrocessos.
O país precisa de justiça, e justiça só existe quando o Estado serve ao povo — não quando o povo serve ao Estado.




