Política e Resenha

CRÔNICA — Nunca mais você ouviu falar de mim… (Padre Carlos)

 

 

Nunca mais você ouviu falar de mim.
E talvez ache — no silêncio que nos separa — que eu também deixei de lembrar.
Mas a vida não funciona assim. O coração muito menos.

Desde aquele último adeus, o mundo continuou girando, mas em algum canto dele eu continuei girando ao seu redor. Você seguiu sua estrada, suas paixões, suas certezas e seus disfarces. Mudou o cabelo, mudou a roupa, mudou o sorriso. Mas eu continuei a te ver.
Não com os olhos. Com aquele tipo de visão que só quem amou demais conhece — a visão da ausência.

Às vezes você aparece num perfume que passa rápido na rua.
Noutras, no riso de alguém que joga a cabeça para trás do mesmo jeito que você fazia.
E quando bate a noite, é nas músicas antigas que você surge, viva, inteira, como se nunca tivesse partido.

A verdade é simples, mas ninguém gosta de confessar:
certas pessoas não saem da nossa história só porque deixaram a nossa vida.

Nunca mais você ouviu falar de mim — e talvez nunca mais precise.
Mas eu continuo te vendo, mesmo que você não saiba.
Em cada lembrança que resiste com a teimosia de quem não quer morrer.
Em cada fotografia que o tempo insiste em não apagar.
Nos dias em que eu juro que esqueci… e descubro, no minuto seguinte, que lembrar é a forma mais sincera de eternizar o que foi.

Não estou preso ao passado. Só aprendi que algumas pessoas não envelhecem: ficam guardadas para sempre na idade do nosso amor.

Se um dia o destino cruzar nossos passos de novo — não importa quando, nem como — talvez você perceba no meu olhar aquilo que guardei por todos esses anos:
não o amor de antes. Mas a gratidão de ter vivido algo que nem a vida conseguiu destruir.

Porque nunca mais você ouviu falar de mim.
Mas eu continuei a ver você.
E isso, longe de doer, me ensinou que alguns encontros são eternos mesmo depois do fim.