
(Padre Carlos)
Há homens que passam pela vida deixando rastros. E há aqueles que deixam marcas. A história de Guilherme Menezes de Andrade, esse filho de Iguaí, nascido em 12 de dezembro de 1943, ultrapassa a condição de personagem histórico para assumir o posto de patrimônio humano da educação e da vida pública no interior da Bahia. Antes de ocupar cargos, exercer liderança ou ser reconhecido na política, Guilherme foi — e permaneceu sendo — professor, profissão que molda consciências e constrói cidadania.
O episódio narrado em seu início de carreira, quando foi professor da Escola Cachoeirinha das Araras no então povoado Fundo de Porcos, define com precisão o homem por trás do nome. Quando perguntado se aceitaria assumir a escola, não pediu tempo para pensar, não exigiu garantias, não condicionou sua decisão a conveniências pessoais. Apenas disse: “Se quiser, posso montar a escola.” E quando lhe questionaram “Quando?”, respondeu sem hesitar: “Agora!”.
Uma escolha simples, mas que selou uma trajetória gigante. Em uma noite, embarcou em um caminhão com Seu Leoni rumo ao povoado. Dormia numa rede, com um pote d’água, um violão, um gravador para registrar histórias e uma mala de roupas no chão. Era o início de um educador vocacionado, de alguém que alfabetizou 84 pessoas em condições adversas e deixou muito mais que palavras escritas: deixou autoestima, dignidade e pertencimento.
Por iniciativa dele, o lugar deixou de ser o estigmatizado “Fundo de Porcos” e passou a se chamar “Cachoeirinha das Araras”, nome construído com a participação dos moradores. Educação aqui não foi apenas quadro, giz e caderno — foi identidade, valorização, reconstrução social.
O tempo passou, e o professor virou gestor, administrador, homem público. Mas seria injusto reduzir Guilherme Menezes à política. Sua grandeza esteve sempre no vínculo humano. Antes de governar, ele escutava; antes de decidir, conhecia a realidade; antes de falar pelo povo, vivia com o povo.
Em tempos de disputas, fake news, marketing eleitoral e esquecimentos oportunistas da história, é necessário reafirmar: Guilherme Menezes não construiu currículo — construiu legado. Sua passagem pela vida pública — seja como prefeito respeitado, gestor visionário ou articulador social — só fez sentido porque nasceu na sala de aula, no chão de terra batida de um povoado escondido no mapa da Bahia.
Homenagear Guilherme não é erguer estátuas. É preservar a memória de que o interior também produz gigantes, e que a educação é sempre a raiz mais profunda de toda transformação social.




