Política e Resenha

ARTIGO – O Fim da Aura de Intocável: PL Suspende Bolsonaro e Enterra o Último Mito

 

 

(Padre Carlos)

 

Há fatos na política que não causam surpresa — mas provocam ruídos sísmicos. A decisão do Partido Liberal (PL) de suspender Jair Bolsonaro de suas funções e cortar sua remuneração é exatamente esse tipo de acontecimento: esperado por uns, negado por outros, mas inevitável diante da realidade.
O homem que por anos serviu como locomotiva eleitoral do partido, símbolo de mobilização das massas conservadoras, acaba agora isolado, encarcerado na sede da Polícia Federal, e amputado de sua influência institucional. A nota oficial é clara: trata-se de um efeito obrigatório da Lei 9.096/95 e da suspensão dos direitos políticos decorrente da Ação Penal 2668, que o condenou por tentativa de golpe de Estado.

O que salta aos olhos, entretanto, não é a letra fria da lei, mas o cálculo político. O PL entendeu que manter Bolsonaro como presidente de honra, recebendo remuneração e exercendo influência, significaria compartilhar o ônus de tê-lo como símbolo num momento em que o bolsonarismo está judicialmente sitiado. Ou seja: quando ajudava a eleger governadores, deputados e prefeitos, era patrimônio. Agora, quando a Justiça o cerra atrás das grades, virou passivo.

O “mito”, portanto, foi suspenso como quem suspende um funcionário incômodo. O discurso inflamado cedeu lugar ao silêncio burocrático. A lealdade da legenda se mostrou com prazo de validade. E se há quem enxergue nessa decisão apenas cumprimento formal da lei, é preciso dizer: não há ingenuidade na política. O PL preserva apenas o que gera votos — e afasta o que ameaça o futuro eleitoral de seus quadros.

O bolsonarismo sobrevive socialmente, nas ruas, nas redes, nos grupos de WhatsApp, nos fiéis seguidores que continuam acreditando num líder político perseguido. Mas Bolsonaro, como figura institucional, sofre hoje o maior golpe de sua trajetória: vê ruir a aura de intocável que sustentou sua carreira, sua militância e sua narrativa de poder.

Esse episódio marca uma virada histórica. Não é apenas a suspensão de um político; é o atestado oficial de que o sistema que ele sempre combateu o engoliu — e que os aliados que juravam fidelidade agora aprenderam a viver sem ele.

O PL lavou as mãos, e a política brasileira entra em um novo capítulo. Se o bolsonarismo terá força para sobreviver sem Bolsonaro, o futuro dirá. Mas o fato é que, no jogo de poder, o mito caiu — e, desta vez, não há live que o ressuscite.