
Padre Carlos
Há algo profundamente dilacerante em assistir, mais uma vez, o espetáculo da impunidade vestir sua melhor roupa de gala e desfilar pelos corredores do poder. Daniel Vorcaro, banqueiro, dono do Banco Master, preso no aeroporto quando fugia para o exterior, já está livre. Tornozeleira eletrônica, disseram. Como se um pedaço de plástico no tornozelo pudesse prender quem tem jatinho na garagem e cobertura de frente para o mar.
Sinto uma dor antiga se reavivando no peito — aquela dor que todo brasileiro carrega como uma cicatriz invisível: a certeza de que nascemos em um país onde a justiça tem endereço, CEP e código de acesso para condomínio fechado. E nós, os de fora do portão, só podemos observar pela grade enquanto o porteiro eletrônico nega nossa entrada.
O Teatro Cruel da Desigualdade
Tornozeleira eletrônica. Deixe-me sorrir com amargura diante desse eufemismo elegante para “liberdade com charme”. Que castigo é esse que permite ao acusado escolher entre sua mansão em Maceió ou seu apartamento em São Paulo para “cumprir” sua pena? Que sofrimento é esse que se resume a não poder viajar para Miami, tendo que se contentar com Búzios?
Enquanto isso, em alguma cela úmida e superlotada deste Brasil, um pai de família apodrece por ter furtado um pacote de fraldas para o filho. Uma mãe chora abraçada às grades porque não conseguiu pagar a fiança de três salários mínimos. Um jovem negro morre antes mesmo do julgamento, assassinado pela presunção de culpa que sua cor de pele carrega como sentença prévia.
Há dois Brasis que habitam o mesmo território, mas jamais se encontram. No Brasil de cima, a lei é uma dama compreensiva, sempre pronta a conceder mais uma chance, a interpretar as circunstâncias com benevolência, a considerar os “bons antecedentes” e a “primariedade”. No Brasil de baixo, a lei é um monstro faminto que devora sonhos, futuro e dignidade sem pestanejar.
A Sofisticação da Impunidade
Compliance Zero, chamaram a operação. Que ironia amarga! Porque o verdadeiro compliance zero é o da nossa justiça em relação aos poderosos. Zero rigor. Zero consequências. Zero vergonha na cara.
Bilhões em títulos falsos, instituições financeiras corrompidas, o Sistema Financeiro Nacional usado como cassino privado de meia dúzia de operadores sem escrúpulos — e o que acontece? Um passeio rápido pelo aeroporto, algumas horas na delegação (com direito a água mineral e cadeira confortável, imagino), e de volta para casa. Lar, doce lar, aquele mesmo que foi comprado com o dinheiro que deveria estar garantindo a aposentadoria de milhares de brasileiros.
Sinto uma indignação que queima, que arde, que corrói por dentro. Não é apenas raiva — é luto. É o luto pela nação que poderíamos ter sido e nunca seremos enquanto a justiça for um privilégio, não um direito.
O Peso Desigual da Lei
A Juíza Solange Salgado da Silva, em sua infinita sabedoria, estendeu a liberdade aos demais investigados. Todos livres. Todos protegidos. Todos confortáveis. Enquanto isso, quantas audiências de custódia nesta mesma semana decretaram a prisão preventiva de pessoas que mal têm advogado, quanto mais jatinho?
Esse é o Brasil que nos parte ao meio: onde a presunção de inocência é proporcional ao saldo bancário. Onde o direito de defesa é tão amplo quanto a cobertura do seu plano de saúde. Onde a liberdade se mede em metros quadrados de propriedade.
E nós? Nós, que acordamos cedo, pegamos ônibus lotado, pagamos nossos impostos, seguimos as regras? Nós somos os tolos desta história. Os palhaços do circo da legalidade. Porque acreditamos — ainda acreditamos, com uma teimosia que beira o heroísmo — que um dia as coisas vão mudar.
A Dor Que Nos Une
Mas o que mais dói, o que verdadeiramente arranca pedaços da alma, é saber que amanhã haverá outra operação, outro escândalo, outra prisão espetaculosa seguida de outra soltura discreta. É um ciclo, uma roda gigante da impunidade que gira e gira, sempre com os mesmos personagens subindo e descendo, mas nunca realmente caindo.
O Brasil não é um país sério enquanto rico não ficar preso. Enquanto a tornozeleira eletrônica for a pior punição que um bilionário enfrenta por devastar a economia nacional. Enquanto a vista para o mar de Maceió for o cenário do “sofrimento” de quem roubou o futuro de milhões.
Escrevo estas linhas com o coração apertado, com a garganta seca de tanto gritar no silêncio. Escrevo porque é tudo que me resta: transformar a indignação em palavras, a revolta em tinta, o desespero em arte. Porque se não registrarmos essa dor, se não nomearmos essa injustiça, ela continuará se repetindo até que nos acostumemos completamente com ela.
E eu me recuso a me acostumar. Me recuso a aceitar que este seja o destino inexorável do meu país. Me recuso a deixar de sentir essa dor que queima — porque o dia em que não doer mais, no dia em que não indignar mais, será o dia em que nos tornaremos cúmplices silenciosos deste teatro grotesco.
Então que continue doendo. Que continue queimando. Que essa chama da indignação jamais se apague, porque é ela que nos mantém humanos em meio à desumanidade institucionalizada.
Rico não fica na cadeia, é verdade. Mas um dia — e que esse dia chegue logo — a História colocará cada um em seu devido lugar. E não haverá tornozeleira eletrônica que escape desse julgamento final.




