
Padre Carlos
É impressionante — quase comovente — ver políticos descobrirem, em ano pré-eleitoral, que a BR-116 e a BR-324 existem. De repente, a duplicação vira prioridade nacional, a Casa Civil bate continência, e os microfones tremem diante de anúncios triunfantes. Agora veio a estrela do momento, o ministro Rui Costa, garantir solenemente que o governo federal vai “licitar até março de 2026” as obras tão sonhadas. Ah sim, licitar. O verbo mágico que já iludiu meia Bahia por décadas.
Quase senti uma lágrima escorrendo quando ouvi os R$ 14 bilhões prometidos — cifra perfeita para estampar manchetes, viralizar no Google News e acalmar uma população cansada de acidentes, congestionamentos, mortes e promessas recicladas ad infinitum. Nessa encenação política, sinto uma vontade imensa de aplaudir… mas prefiro guardar as mãos no bolso para não participar da farsa.
Quando escutei a fala do ministro, a memória me levou imediatamente aos abnegados companheiros do movimento Duplica Sudoeste, especialmente José Maria Caires, que luta há anos por aquilo que deveria ser direito, não esmola: infraestrutura, segurança, respeito. Enquanto José Maria atravessava madrugadas organizando atos, mobilizando entidades, pressionando governos, os mesmos que agora fazem discursos heróicos estavam muito ocupados fingindo que não ouviam.
E hoje, quando o tema vira palanque, aparecem como salvadores — basta uma coletiva e pronto, transformam abandono estatal em ato de bravura. A Bahia, Vitória da Conquista, o Sudoeste e todo o corredor da 116 já perderam vidas e oportunidades esperando uma duplicação que só se materializa em PowerPoint de gabinete.
Será que devemos acreditar? Será que agora vai? Ou será que essa licitação milagrosa de março de 2026 faz parte daquele calendário místico onde tudo se resolve entre sonoras entrevistas e disputas eleitorais?
Enquanto os políticos colecionam promessas, o movimento Duplica Sudoeste coleciona lutas, protocolos, reuniões, ofícios, estatísticas e dor real na pista. A história registra quem trabalha e quem anuncia. Alguns fazem, outros discursam. E o povo do Sudoeste já aprendeu a diferença.
Mas tudo bem — vamos guardar a data, já que eles exigem fé:
Março de 2026.
Se até lá as máquinas não estiverem na pista, que os microfones se estilhacem com a vergonha de mais uma mentira.
Enquanto isso, continuamos a ver a rodovia sangrar, esperando que a prioridade da política um dia seja gente — e não manchete.




