
Padre Carlos
Houve amores que chegaram para ficar. Houve outros que passaram apenas para ensinar. E houve aqueles — os mais perigosos, os mais intensos, os mais difíceis de abandonar — que eu mesmo inventei. Fiz isso porque a realidade não dava conta da minha falta, porque o coração, inquieto, buscava alguma forma de existir para além do possível. E assim, num instante de fragilidade e coragem, eu acabei criando você.
Sim, eu tinha inventado você.
Inventei porque precisava. Porque o amor real, às vezes, não bastava. Porque a vida exigia, em certos dias, um pouco de fantasia para não me quebrar por inteiro. Existia você — com suas idas, suas ausências, sua indecisão — e existia aquilo que eu inventei de você: a versão que sorria no tempo certo, que permanecia quando tudo pedia desistência, que cuidava do que eu nunca ousaria confessar.
A cada reencontro, eu experimentava a mesma dúvida: era você que encostava na minha vida ou era minha imaginação que te vestia de esperança? Havia algo de assombro no seu olhar, como se você carregasse o dom de ser real e irreal ao mesmo tempo. Você tinha sido meu amor mais bonito, mas também a minha criação mais ousada. Meu coração, teimoso, precisava de você — mesmo que você nunca estivesse realmente disposto.
Você sempre aparecia e desaparecia.
Chegava perto, mas com a postura de quem já preparava o passo seguinte — aquele que levava embora. Seu corpo se aproximava, mas sua alma parecia sempre com a mala pronta. E eu, sabendo disso, ficava quieto, te assistia devagar, como quem queria prolongar o minuto, esticar o instante, arrancar do tempo uma trégua para respirar você um pouco mais.
Eu te amava como quem escrevia coragem no próprio corpo.
Como quem traçava nas veias uma rota silenciosa para não se perder de si mesmo. Eu te inventava com a mesma desatenção de quem atravessa uma rua sem olhar, acreditando que o destino teria piedade. Escrevia você numa língua que ainda não existia — um idioma que só compreendia quem já tinha amado o impossível. Talvez elaborar uma nova língua fosse, realmente, a única forma de dialogar com o amor inventado.
É verdade: jogado aos seus pés, eu era mesmo exagerado.
Mas quem amava o irreal precisava ser. Intensificava tudo para que a fantasia não se dissolvesse. Soprava vida naquilo que insistia em não existir completamente.
E eu adorava um amor inventado.
Não porque ele me enganava, mas porque me mantinha vivo. O amor inventado permitia que eu seguisse acreditando que, apesar das faltas, da distância e do seu eterno “ir embora”, havia algo em mim capaz de amar com uma força que o mundo real ainda não tinha aprendido a acolher.
No fim, talvez a grande verdade fosse esta:
você nunca tinha sido só você.
Você tinha sido — e talvez ainda fosse — tudo o que meu coração, ferido e faminto, ousara criar para não desistir do amor.
Um amor real demais para existir.
E inventado demais para ser esquecido.




