Política e Resenha

ARTIGO – O Blefe Mal Ensaiado de Flávio Bolsonaro

 

 

Padre Carlos

Ninguém precisa ser especialista em xadrez político para perceber quando uma jogada é feita apenas para ganhar tempo. E é exatamente isso que está acontecendo com a suposta candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Aliados, opositores, analistas, jornalistas e até setores do próprio bolsonarismo têm repetido a mesma avaliação em voz baixa: isso não para em pé. E, convenhamos, não para mesmo.

Há quem queira acreditar — sempre há — mas o Brasil que acompanha política com um mínimo de memória sabe que há algo profundamente mal contado nessa história. Eu me incluo entre os que não engolem esse enredo improvisado. E explico por quê.

Flávio Bolsonaro só não está preso hoje por um milagre jurídico chamado foro privilegiado. O escândalo da rachadinha na Alerj não foi fofoca de corredor. Foi um inquérito robusto, recheado de provas, movimentações financeiras suspeitas, depósitos incompatíveis e uma loja de chocolates que lavava dinheiro melhor do que vendia trufas. O “Willy Wonka da extrema direita” fugiu da Justiça do Rio ao vestir a toga dourada do Senado. Se não fosse senador, estaria atrás das grades ou em vias de estar.

E é aqui que mora o pulo do gato: você realmente acredita que Flávio Bolsonaro, um homem que conhece o cheiro da cela por dentro, vai arriscar perder o foro privilegiado?

Ser candidato à Presidência significaria abdicar da reeleição ao Senado — e, portanto, abrir mão de mais oito anos de blindagem. O clã Bolsonaro sabe perfeitamente o que acontece quando um deles perde o foro: o patriarca está preso justamente porque deixou o Planalto. O clã aprendeu na carne que o primeiro dia sem proteção é o primeiro dia do inferno judicial.

A partir desse ponto, a tese do blefe ganha consistência. E é por isso que aliados e opositores classificam a candidatura como cortina de fumaça. Uma jogada para confundir, não para disputar.

Há setores acreditando que Flávio será retirado do tabuleiro mais adiante para dar lugar a Tarcísio de Freitas ou Ratinho Júnior, nomes mais palatáveis ao grande empresariado e menos tóxicos ao “mercado”. A burguesia nacional, sempre pragmática, já percebeu que o bolsonarismo como projeto é perigoso demais até para eles mesmos. Querem continuar mandando, claro — mas com outros venenos, menos instáveis e menos radioativos que os da família Bolsonaro.

Do outro lado, dentro do próprio bolsonarismo, o blefe tem outra função: reorganizar internamente o clã. A briga recente entre Flávio e Michelle Bolsonaro expôs fissuras dentro da família. Michelle sonha ser o rosto eleitoral do grupo, mas esbarra no machismo estrutural do próprio marido — ele jamais aceitará ser comandado por uma mulher. Ela deve se contentar com um Senado por Brasília, enquanto Carluxo segue sua carreira de histeria digital em Santa Catarina.

Já Flávio tenta se impor como herdeiro político, mas carrega peso demais nas costas: rachadinha, mansão de 6 milhões financiada pelo BRB, suspeitas de lavagem de dinheiro, ligações com criminosos e um passado que fede a chocolate estragado. É um currículo que assusta até aliados.

É por isso que ninguém leva a sério a candidatura. Não é questão de opinião: é questão de lógica. Para que Flávio se lançasse candidato, teria que ser suicida jurídico — e ele não é.

Ao contrário: é covarde politicamente. Não arrisca, não enfrenta, não compra briga que possa ferrar seu futuro judicial. Seu objetivo é sobreviver, não disputar.

O anúncio, portanto, serve para:

  • confundir a imprensa,

  • desviar atenção da lama revelada pela PF (Banco Master, Refit, lavagem de dinheiro, facções criminosas),

  • preservar capital político enquanto Jair Bolsonaro apodrece numa cela em Brasília,

  • e manter a família no centro do debate.

O resto é fumaça.

O Brasil vive um momento delicado, cheio de revelações explosivas envolvendo a direita, o centrão e a extrema direita. Nesse contexto, jogar Flávio Rachadinha no centro da cena é apenas uma forma de distrair, atrasar, baralhar.

Mas a verdade é simples, e todos sabem disso:

Flávio Bolsonaro não será candidato a presidente da República.
Foi, é e continuará sendo apenas um blefe mal ensaiado.