
(Padre Carlos)
Há momentos na história política de um país em que se escancara a verdade nua e crua: o sistema não funciona para o cidadão comum, mas para os interesses de quem detém poder, influência e capacidade de chantagear a República. A votação que reduziu as penas dos envolvidos no processo golpista é um desses momentos — talvez um dos mais simbólicos desde a Nova República.
O que a Câmara fez não foi apenas uma manobra legislativa. Foi um pacto de sobrevivência mútua, uma coreografia cínica que uniu Centrão, direita e parte do establishment para resolver dois problemas simultâneos:
-
tirar Jair Bolsonaro do corredor jurídico, e
-
desamarrar a candidatura de Tarcísio de Freitas para 2026.
A equação era simples, mas brutal:
Flávio Bolsonaro sequestrou a candidatura de Tarcísio.
E o resgate era alto.
Muito alto.
A elite política que vê no governador paulista uma alternativa viável a Lula em 2026 estava encurralada. O plano de colocá-lo como “candidato de união da direita” estava travado por uma variável incômoda: Bolsonaro pai preso e Bolsonaro filho irredutível.
Então veio o acerto.
Um acerto que o país não ouviu, mas sentiu.
Como a anistia era explosiva demais, inventou-se a saída “técnica”: a tal dosimetria, uma manobra legislativa que, na prática, encurta penas, reinterpreta crimes e reclassifica culpados. Dos bagres pequenos aos tubarões gordos. E, no rastro dessa engenharia jurídica, criminosos comuns também foram atingidos, abrindo um ralo perigoso no sistema penal.
Tudo isso para quê?
Para devolver ao jogo eleitoral de 2026 o candidato preferido do mercado, do Centrão e da elite econômica: Tarcísio de Freitas.
O preço foi pago.
E pago com juros.
A repercussão foi imediata, atravessando governo, oposição e opinião pública. A mensagem está dada:
quem controla o tabuleiro não são as leis — são os acordos.
E, quando a lei se curva a acordos, o Estado perde sua espinha.
O crime ganha alma.
E a democracia perde um pedaço de si.
O país segue caminhando, mas parece cada vez mais evidente:
o que foi aberto ontem não foi apenas a porta da cadeia.
Foi também a porta da desconfiança.
E dela, meu amigo, ninguém mais tranca a chave.




