Política e Resenha

 

 

Padre Carlos

Há instantes raros no Senado Federal em que a História do Brasil parece suspender o ar da sala, impor silêncio e reivindicar o direito de ser narrada sem filtros, sem disfarces e sem os atalhos convenientes do revisionismo. Foi exatamente isso que ocorreu quando o senador baiano Otto Alencar ergueu a voz — não para humilhar — mas para recolocar a verdade no centro do debate democrático, diante das tentativas do general Hamilton Mourão, ex-vice-presidente da República, de reescrever o golpe militar de 1964.

Com a serenidade de quem carrega a memória viva da ditadura militar, Otto resgatou algo que falta a tantos homens públicos: coragem moral. Enquanto Mourão tentava suavizar um regime que perseguiu, censurou e matou brasileiros, o senador baiano devolveu-lhe a realidade com precisão cirúrgica: “Vossa Excelência falou sobre o golpe de 64 porque não viveu isso.”

Naquele momento, a democracia brasileira encontrou em Otto uma testemunha lúcida e um defensor incontornável.

Ele lembrou que quem invadiu Brasília em 8 de janeiro não buscava proteger o país — buscava derrubar o Estado democrático de direito. Recordou que Bolsonaro, ídolo político de Mourão, nunca foi pacifista, mas alguém que repetidas vezes ameaçou as instituições. E trouxe à tona o que deveria ser incontestável: a ditadura matou não apenas opositores, mas cidadãos comuns, gente sem qualquer militância, fuzilados por uma lógica que transformava o civil em inimigo natural.

Ao citar Carlos Lacerda, apoiador do golpe que acabou exilado; ao evocar Juscelino Kubitschek, falsamente chamado de comunista; ao relembrar de amigos, cassados sem direito à defesa, Otto abriu novamente a cicatriz histórica que o Brasil insiste em esconder debaixo do tapete.

O militar, sentado na cadeira do poder, não salva a democracia: a domina.

Sua fala desmontou a fantasia cuidadosamente construída por setores que tentam transformar ditadura em “movimento”, censura em “ordem”, exílio em “necessidade”. Otto Alencar não apenas debateu com Mourão — ele desmontou, com firmeza e elegância, a engrenagem do revisionismo.

Por isso há orgulho. Orgulho de ver um senador baiano enfrentar, sem hesitação, a narrativa que tenta absolver o autoritarismo. Orgulho de ver a voz da Bahia ecoar pelo Senado Federal, lembrando ao país que direitos civis, dignidade humana e democracia não se negociam.

No fim, fica uma lição que ultrapassa gerações:
a verdade histórica sempre encontra quem a carregue adiante, mesmo quando muitos tentam enterrá-la.

Hoje, esse nome foi Otto Alencar — e o Brasil inteiro ouviu.