
Padre Carlos
Há um instante — mínimo, quase invisível — em que o mundo poderia virar para qualquer lado, mas vira justamente para o lado onde alguém está. Um desvio de um segundo, o levantar tardio de uma sobrancelha, o tropeço no meio-fio, o ônibus que atrasa: tudo isso é arquitetura secreta do destino ou mero capricho do caos?
Penso nisso quando sinto o peso das ausências. Das vidas que poderiam ter roçado a minha pele no corredor estreito de um supermercado, mas passaram milímetros atrás, enquanto eu me inclinava para pegar um pacote de café. O silêncio ali — esse silêncio de encontros que nunca foram — é tão palpável quanto a respiração de quem se ama dormindo ao lado.
Há uma geometria cruel regendo o mundo. Bilhões de rotas que não se cruzam. Bilhões. Como rios que nascem em montanhas distantes, serpenteiam por terras que nunca veremos e desaguam em mares que jamais tocarão os nossos pés. Tanta água passando, tanta vida passando, tanta gente que poderia incendiar o peito da gente — e não passa.
Às vezes imagino esse mapa impossível: dois pontos se movendo em direções opostas, quase se tocando, quase se percebendo, quase se escolhendo. Mas o “quase” é uma catástrofe. É o abismo que separa o amor de acontecer do amor que sequer foi imaginação.
E, ainda assim, existe o milagre.
Ele é pequeno. É quase nada. É o virar de uma cabeça no momento exato. O levantar de um olhar que se encontra com outro e, por motivos que nenhuma ciência explica, decide ficar.
É o corpo que esbarra como se fosse acidente — e talvez seja —, mas acende no peito um clarão de pertencimento. É o sorriso distraído que, sem saber, muda o eixo da Terra.
Quando isso acontece, tudo dentro da gente se curva.
O mundo faz silêncio.
Até os desencontros se recolhem.
Porque, de repente, entre bilhões de pessoas que nunca se encontrarão, duas se encontram. E é tão improvável, tão matematicamente absurdo, tão estatisticamente impossível… que só pode ser sagrado.
Não é que o amor seja santo.
É que o encontro é milagre.
E milagre, sendo raro, carrega sempre o peso luminoso da eternidade.




