Política e Resenha

ARTIGO – Vitória da Conquista no Mapa do Mundo: Governança, ODS e o Desafio de Transformar Presença Internacional em Resultados Locais

 

 

Vitória da Conquista deu um passo simbólico e politicamente relevante ao figurar entre os municípios latino-americanos selecionados para a etapa presencial do curso internacional Ciudades al Mundo 2025, realizado em Montevidéu. Em tempos em que a política municipal costuma se fechar em disputas paroquiais, ver uma cidade do interior da Bahia dialogando com redes internacionais de governança, Agenda 2030 e Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) merece atenção — e também reflexão crítica.

A presença da coordenadora do Centro de Governança dos ODS da Casa Civil, Ludmila Araújo, não é apenas protocolar. Ela representa uma concepção de gestão pública que compreende que os desafios locais — pobreza, desigualdade, crise climática, planejamento urbano, saúde e educação — não se resolvem apenas dentro das fronteiras administrativas do município. A internacionalização de políticas públicas, quando bem orientada, amplia repertórios, permite aprender com erros e acertos alheios e insere a cidade em circuitos estratégicos de cooperação técnica e institucional.

O curso promovido pela Rede Mercociudades, com apoio de universidades e organismos multilaterais como o CAF – Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe, aponta para um novo modelo de municipalismo: menos improviso, mais planejamento; menos discurso, mais método. O fato de Vitória da Conquista ter passado por três meses de formação virtual e, ao final, ter seu projeto selecionado entre os cinco melhores — sendo o único do Brasil — revela esforço técnico e capacidade de articulação que não podem ser desprezados.

O projeto “Vitória da Conquista–Córdoba: Internacionalización y Gobernanza Local para la Agenda 2030” simboliza algo maior que um intercâmbio acadêmico. Ele traduz a tentativa de construir uma governança local alinhada às metas globais de desenvolvimento sustentável, conectando universidade, gestão pública e redes internacionais. Em um país onde a Agenda 2030 muitas vezes é tratada como jargão vazio ou bandeira ideológica, esse movimento coloca o município em sintonia com práticas contemporâneas de gestão pública.

As declarações do secretário-chefe da Casa Civil, coronel Ivanildo da Silva, reforçam essa narrativa ao destacar Vitória da Conquista como referência em boas práticas de governança e desenvolvimento sustentável. Ainda que todo discurso institucional deva ser recebido com o necessário senso crítico, é inegável que a seleção do projeto e a participação nos debates realizados em espaços como o edifício do Mercosul e a sede da Presidência uruguaia projetam a cidade para além do noticiário local.

Entretanto, é aqui que o articulista precisa ir além do aplauso fácil. A grande questão não é estar em Montevidéu, mas o que retorna de Montevidéu para os bairros de Vitória da Conquista. A internacionalização da gestão pública só se legitima quando se traduz em políticas concretas, indicadores mensuráveis, melhoria efetiva da qualidade de vida e fortalecimento da democracia local. Caso contrário, corre o risco de se tornar apenas uma vitrine elegante, distante da realidade cotidiana da população.

Vitória da Conquista reforça, com essa participação, sua estratégia de inserção em redes de cooperação regional e internacional. O desafio agora é transformar capital simbólico em resultados práticos: cidades mais sustentáveis, políticas públicas inovadoras, gestão transparente e compromisso real com os ODS. A presença no mundo é importante. Mas, para a cidadania, o que conta mesmo é como o mundo passa a caber melhor dentro da cidade.