Política e Resenha

O Grito Silencioso da Lagoa das Bateias: Como Estamos Afogando Nosso Próprio Futuro

 

 

 

A Ferida Aberta no Coração de Nossa Cidade

Existe uma dor silenciosa que se espalha pelas margens da Lagoa das Bateias. Não é a dor que grita, que se manifesta em protestos ou reclamações públicas. É aquela dor surda, constante, que nasce quando testemunhamos a destruição daquilo que deveria ser sagrado: o nosso lar comum, a nossa terra, o reflexo de quem somos como povo.

Quando caminhamos pelo Parque Ambiental da Lagoa das Bateias e deparamos com garrafas plásticas flutuando na água, com sacos de lixo abandonados às margens, com resíduos espalhados por aquele espaço que deveria ser um santuário de vida, sentimos algo muito além de frustração. Sentimos vergonha. Sentimos a traição de nós mesmos contra nós mesmos.

Este parque não nasceu do nada. Ele nasceu de um sonho coletivo, de um investimento que é, antes de tudo, um ato de fé na humanidade que habita Vitória da Conquista. Cada centavo aplicado ali representa a esperança de que seríamos capazes de honrar aquilo que nos foi confiado. Representa a crença de que poderíamos, finalmente, enxergar a água onde antes só havia abandono, sentir a brisa onde antes só havia esquecimento.

Mas como podemos falar de conquista quando conquistamos algo apenas para destruí-lo com nossas próprias mãos?

Há uma ironia cruel neste cenário. Recebemos um presente precioso – um espaço de respiração numa cidade que cresce acelerada, um oásis verde em meio ao concreto, um espelho d’água que deveria refletir o céu e não nosso descaso – e o tratamos como lixeira. Cada embalagem jogada ali é mais que um resíduo físico: é um fragmento de nossa dignidade que se perde, é um pedaço de futuro que negamos às nossas crianças.

Enquanto milhões de pessoas no mundo imploram por uma única gota de água limpa, nós temos o privilégio de ter um parque ambiental sendo recuperado, limpo, devolvido à sua vocação natural. E nossa resposta? Poluir. Sujar. Destruir. Como se não compreendêssemos que cada ato de negligência é uma sentença que assinamos contra nós mesmos.

Há quem diga que a prefeitura não faz, que os recursos vão sempre para os mesmos lugares, que há descaso. Mas pergunto: que descaso é maior que aquele que praticamos contra aquilo que nos pertence? A máquina que precisa voltar para limpar o que já foi limpo, a caçamba que retorna onde já havia passado – isso não é apenas desperdício de dinheiro público. É o desperdício de uma oportunidade histórica de mostrarmos que somos dignos daquilo que conquistamos.

A Lagoa das Bateias não é propriedade de político algum. Ela não tem dono com nome e sobrenome. Ela pertence a cada conquistense que acorda cedo, que trabalha duro, que sonha com uma cidade melhor. Ela pertence às crianças que merecem correr em espaços verdes. Ela pertence aos idosos que precisam de lugares tranquilos para descansar. Ela pertence a todos nós – e, portanto, a responsabilidade por sua preservação também é nossa.

Quando jogamos lixo no parque, não estamos apenas sujando um espaço físico. Estamos declarando ao mundo que não valorizamos aquilo que é nosso. Estamos dizendo que preferimos a comodidade momentânea de descartar nosso lixo onde bem entendemos ao trabalho diário de construir uma cidade mais limpa, mais digna, mais humana. Estamos escolhendo o caminho mais fácil, mesmo sabendo que ele nos leva ao abismo.

Mas ainda há tempo. Sempre há tempo quando existe vontade de mudança.

Precisamos nos tornar guardiões uns dos outros. Quando virmos alguém jogando lixo, não podemos simplesmente virar o rosto e seguir em frente. Precisamos ter a coragem de intervir, de educar, de mostrar que aquele ato aparentemente pequeno tem consequências imensuráveis. Cada garrafa plástica que flutua na lagoa é um futuro que se compromete. Cada resíduo que polui a água é uma doença que se anuncia.

A natureza não fala, mas grita em silêncio. Ela pede socorro através das águas que se tornam turvas, através dos peixes que morrem, através da beleza que se perde. E nós, que temos a capacidade de ouvi-la, escolhemos nos fazer de surdos.

Imaginem um futuro onde possamos, quem sabe, mergulhar nessas águas. Onde as crianças possam brincar sem medo, onde as famílias possam fazer piqueniques às margens sem se deparar com montanhas de lixo. Esse futuro é possível. Mas ele só se concretizará se entendermos, de uma vez por todas, que o Parque Ambiental da Lagoa das Bateias é nosso espelho coletivo. Ele reflete quem somos. E, neste momento, a imagem refletida não é bonita.

Que possamos despertar para essa verdade antes que seja tarde demais. Que cada conquistense possa olhar para a Lagoa das Bateias e sentir orgulho, não vergonha. Que possamos dizer às futuras gerações: “Nós recebemos este presente e o honramos. Nós fomos dignos.”

Porque, no final das contas, a verdadeira conquista não está em receber um parque ambiental. Está em ser capaz de preservá-lo. Está em reconhecer que cuidar do que é nosso é a forma mais sincera de demonstrar amor por nossa cidade, por nosso povo, por nós mesmos.

A Lagoa das Bateias está esperando. Esperando que sejamos, enfim, a altura do presente que recebemos.

Lucas Batista