Política e Resenha

ARTIGO – Quando a Palavra Resiste: Renan Calheiros e o Último Gesto de Dignidade no Senado

 

 

 

 

Na quarta-feira, 17 de dezembro de 2025, o Senado Federal ofereceu ao país mais um espetáculo deprimente de sua decadência institucional. O que se viu não foi deliberação republicana, mas encenação. Não foi debate democrático, mas acordo de bastidores. Não foi política em sentido nobre, mas a repetição cansada da esculhambação que já contaminou a Câmara dos Deputados e agora se espraia, sem pudor, pelo Senado da República. Em meio a esse cenário de avacalhação e desmoralização, um gesto rompeu o script: o pronunciamento firme, indignado e consciente do senador Renan Calheiros.

A política também é feita de símbolos. E há momentos em que a palavra, quando pronunciada com coragem, se transforma em ato histórico. Renan Calheiros não falou apenas como senador experiente; falou como personagem político em confronto direto com o sistema que ele próprio conhece por dentro. Ao denunciar a tentativa de acelerar, em 24 horas, a tramitação de uma matéria complexa e de profundo impacto institucional — o chamado PL da anistia, travestido de tecnicalidade jurídica — Renan não estava apenas discordando de um procedimento. Estava resistindo a uma farsa.

Sua fala carrega os elementos clássicos da literatura engajada: a denúncia do retrocesso institucional e jurídico, a defesa do Estado de Direito, a recusa explícita em participar de encenações parlamentares e o alerta de que tal manobra desestimula os militares legalistas que se recusaram a apoiar aventuras golpistas. Ao afirmar que não compactuaria com uma votação apressada para servir de moeda de troca a outros interesses do governo, Renan expôs o cinismo parlamentar com a crueza que a situação exigia.

Esse gesto ecoa a tradição do romance de tese, onde o personagem não é neutro, não flutua acima da história, mas toma partido.  A  política não é pano de fundo: é o próprio enredo. O povo aparece como referência moral, a legalidade como fronteira ética, e o autoritarismo como inimigo a ser nomeado. O artigo engajado que eu proponho escrever não se esconde atrás de falsas imparcialidades. Ele escolhe lado. E Renan escolheu.

Enquanto isso, o Senado se comportava exatamente como a Câmara dos Deputados: a mesma avacalhação, a mesma falta de escrúpulos, a mesma desmoralização da democracia representativa. Presidências que deveriam zelar pelo rito constitucional se tornaram símbolos de um sistema que opera nas sombras, na surdina, acelerando processos para atender interesses que nada têm a ver com a sociedade brasileira. O Parlamento, que deveria ser a casa do debate, converteu-se em balcão.

Ao denunciar que a votação apressada frustraria uma investigação densa e profunda da Polícia Federal, baseada em provas robustas contra golpistas, Renan tocou no nervo exposto da crise institucional brasileira: a tentativa permanente de apagar a memória democrática, de normalizar o golpismo, de transformar crimes contra a democracia em simples divergências políticas. É contra essa anestesia moral que sua fala se insurge.

Renan Calheiros, neste episódio, representa mais do que um senador. Representa a lembrança incômoda de que ainda é possível dizer “não” quando o sistema inteiro conspira pelo silêncio cúmplice. Para mim, ele se apresenta como exemplo de resistência institucional em tempos de covardia coletiva. E é legítimo esperar que o povo de Alagoas, que conhece o peso da história, saiba distinguir quem defende a democracia de quem a instrumentaliza — e dê a Artur Lira a derrota política que sua trajetória recente merece.

A maturidade da sociedade brasileira será testada mais uma vez. Ou aceitaremos passivamente a degradação contínua das instituições, ou reconheceremos que a democracia não se sustenta sem gestos de coragem, sem palavras que enfrentem o poder, sem homens públicos dispostos a pagar o preço da dissidência. Quando o Parlamento falha, a consciência pública precisa falar mais alto. E, naquele dia, foi Renan Calheiros quem falou.

(Padre Carlos)