Política e Resenha

Quando Trabalhar Vira Sentença de Morte: A Falência da Segurança Pública na Bahia

 

 

Há momentos na história de um povo em que a tragédia deixa de ser exceção e passa a ser sintoma. A execução brutal de três trabalhadores de uma empresa de internet no Alto do Cabrito, em Salvador, não é apenas mais um crime hediondo na longa estatística da violência urbana na Bahia. É a prova concreta, dolorosa e incontestável de que o governo do Estado já perdeu a guerra para o crime organizado, tanto na Região Metropolitana de Salvador quanto no interior. Quando homens honestos são torturados e mortos por se recusarem a pagar “pedágio” para trabalhar, o que está em jogo não é apenas a segurança pública, mas o próprio monopólio da força, fundamento básico do Estado democrático de direito.

Os enterros de Ricardo Antônio da Silva Souza, Jackson Santos Macedo e Patrick Vinícius foram marcados por revolta, silêncio e lágrimas. No cemitério Bosque da Paz, familiares e colegas de trabalho sepultaram Ricardo e Jackson com a sensação de que não foi apenas a vida deles que foi interrompida, mas a dignidade do trabalho e a esperança de proteção estatal. Patrick Vinícius, enterrado no Jardim da Saudade, simboliza a mesma dor. Eles saíram de casa como milhares de trabalhadores baianos saem todos os dias: com o uniforme, a ferramenta e a fé de que voltariam ao fim do expediente. Não voltaram porque cruzaram uma fronteira invisível imposta pelo crime.

A motivação do crime revela a lógica perversa do poder paralelo. Uma facção criminosa exigiu R$ 10 mil para permitir a prestação de um serviço essencial: internet. Diante da negativa, veio a barbárie. Extorsão, sequestro, tortura e execução como método de controle territorial. Os corpos encontrados com marcas de violência, ainda com o uniforme da empresa, são um recado macabro: naquela área, quem manda não é o Estado, não é a lei, não é a Constituição. É o fuzil, é a ameaça, é o medo.

Os relatos da família de Ricardo escancaram a injustiça. A esposa, Sônia Regina, descreve um homem simples, trabalhador, pai de uma adolescente de 14 anos, sem qualquer ligação com o crime. A última conversa, ao meio-dia, tratava de trabalho, de normalidade, de rotina. A irmã, Janaína, fala da indignação diante da crueldade gratuita. Não eram alvos, não eram envolvidos, não eram suspeitos. Eram trabalhadores honestos. E justamente por isso morreram, porque o crime organizado não tolera a legalidade quando ela não se submete à sua taxa de submissão.

O caso expõe algo ainda mais grave: a atuação do poder paralelo sobre serviços essenciais como internet, gás e telefonia. Em diversos bairros de Salvador e do interior da Bahia, empresas só entram se negociarem com facções. O cidadão só consome se aceitar as regras do crime. Forma-se, assim, um verdadeiro “muro invisível”. Não há barricadas de concreto, mas há limites claros: quem atravessa sem pagar, não passa. O trabalhador até tem a chave da legalidade, o crachá, o contrato, mas o crime cobra o pedágio com a própria vida. É uma economia do terror, uma privatização da violência.

Diante disso, soa quase ofensiva a distância entre o discurso oficial e a realidade vivida nas periferias. O secretário de Segurança Pública classifica o crime como bárbaro e covarde, promete prioridade total, inteligência, investigação. O governador fala em algo inaceitável e reafirma compromissos. As palavras são corretas, mas tardias e insuficientes. Enquanto autoridades afirmam que “o domínio é do Estado”, facções decidem quem trabalha, quem fornece serviços e quem morre. Essa contradição mina a confiança da população e alimenta a sensação de abandono.

Quando o Estado perde o controle de territórios, quando não garante a livre circulação do trabalho, quando permite que facções regulem serviços básicos, estamos diante de uma falência parcial da autoridade pública. E essa falência não é retórica, é prática, diária, sangrenta. Por isso, a discussão sobre intervenção federal na segurança pública da Bahia deixou de ser tabu ideológico para se tornar necessidade concreta. Não se trata de vaidade política, mas de salvar vidas, restabelecer o monopólio da força e romper o cerco do crime organizado.

A morte de Ricardo, Jackson e Patrick não pode ser apenas mais um episódio lamentado e arquivado. Ela exige uma resposta à altura da gravidade do momento. A Bahia vive sob um muro invisível erguido pelo crime, que separa o Brasil legal do Brasil dominado pelo medo. Derrubar esse muro exige coragem política, ação coordenada e, sobretudo, o reconhecimento de que a guerra, do jeito que está, já foi perdida. Persistir na negação é condenar outros trabalhadores ao mesmo destino.

(Padre Carlos)