
Por: Padre Carlos
Existem momentos na história do futebol que transcendem as quatro linhas, o drible e o grito de gol. São instantes em que o metafísico invade o campo e o destino parece assinar um contrato de exclusividade com a vida. O relato de Douglas Franklin, o eterno camisa 10 e segundo maior artilheiro da história do Esporte Clube Bahia, sobre como o “Esquadrão” o salvou de uma tragédia aérea, não é apenas uma anedota de vestiário; é a fundamentação de uma identidade.
O Voo que Não Aconteceu
Imagine o cenário: 1972. Douglas era um jovem talento cobiçado, vindo do Santos para o Bahia. O plano original era embarcar para o Rio de Janeiro antes de seguir para Salvador. Mas o Bahia, em uma pressa que hoje entendemos como divina, antecipou sua vinda. Enquanto o craque desembarcava em solo soteropolitano para fazer exames médicos, o avião em que ele originalmente estaria caía, não deixando sobreviventes.
A narrativa de Douglas ao ser levado à Igreja do Bonfim, ainda sem saber da tragédia, é de arrepiar. Ele questiona: “Por que vim para cá?”. A resposta de Ismael, dirigente tricolor, foi o impacto de uma vida inteira: “Para agradecer. O avião que você ia caiu. Morreu todo mundo”.
Nesse momento, o Bahia deixou de ser um empregador para se tornar um salvador. A camisa tricolor deixou de ser um uniforme para se tornar uma segunda pele — uma extensão da própria existência.
“Bahia é Vida”
Para Douglas, o Bahia não representa títulos (embora tenha conquistado o histórico heptacampeonato baiano), nem apenas os 184 gols que o colocam no panteão dos imortais. Para ele, o Bahia é, literalmente, o ar que ele respira. “Bahia vida, minha vida”, ele repete com a voz embargada.
Essa gratidão transformou-se em uma entrega técnica e emocional raramente vista. Douglas não jogava apenas por bônus ou glória; jogava para retribuir cada segundo que o destino lhe concedeu a mais. Se hoje o torcedor tricolor se orgulha de uma mística que envolve o clube — o famoso “Ninguém nos vence em vibração” — muito disso passa pela alma de jogadores que, como Douglas, sentiam que estar ali era um propósito maior.
O Legado do Camisa 10
Douglas Franklin é, para muitos, o maior jogador que já vestiu a camisa do Bahia, superando até mesmo nomes com maior projeção nacional. Ele era a elegância, o passe milimétrico e a finalização precisa. Mas, acima de tudo, ele era a prova viva de que o Bahia é um clube abençoado.
A música que ele cita, o hino popular, as arquibancadas da Fonte Nova… tudo isso se funde em um homem que entendeu que o futebol é um detalhe perto da sobrevivência, mas que a sobrevivência ganha sentido através do futebol.
Conclusão
O relato de Douglas é um lembrete para todos nós, amantes do esporte: os clubes são feitos de pessoas, de suor e, às vezes, de milagres. Quando Douglas Franklin entrou na Igreja do Bonfim naquele dia de 1972, ele não estava apenas começando uma carreira de sucesso na Bahia; ele estava nascendo de novo. E escolheu dedicar essa segunda vida a um único pavilhão.
Quem joga no Bahia, como ele diz, não esquece. E a torcida, Douglas, jamais esquecerá que o destino conspirou para que você ficasse entre nós, transformando o “quase fim” no mais belo começo de uma história de amor tricolor.




