Política e Resenha

ARTIGO – Quando a Vítima Precisa Provar a Própria Inocência: A Globo, Merval e o Ataque à Democracia Brasileira

 

 

Padre Carlos

A história política brasileira ensina que certos discursos retornam como fantasmas: mudam o cenário, trocam os personagens, mas preservam a mesma lógica perversa. A Rede Globo voltou a atacar — e não é força de expressão. O argumento apresentado por Merval Pereira, colunista de O Globo, no caso envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o Banco Master, carrega um vício grave: a inversão do ônus da prova. Agora, não é mais o acusador que precisa provar a denúncia; é a vítima que deve demonstrar, “de modo cabal”, que não cometeu crime. Trata-se de uma aberração jurídica travestida de zelo institucional.

É impossível analisar esse episódio sem recorrer à memória histórica. Estamos falando da mesma Globo que apoiou o golpe de 1964, silenciou diante da ditadura militar, legitimou o golpe parlamentar de 2016, sustentou a narrativa seletiva da Lava Jato e colaborou para a destruição reputacional de lideranças políticas que contrariavam interesses econômicos e geopolíticos. Agora, novamente, a emissora parece flertar com forças que jamais aceitaram a soberania popular e o Estado Democrático de Direito.

O alvo da vez não é um político comum. Alexandre de Moraes tornou-se o principal fiador institucional da democracia brasileira em seu momento mais frágil. Foi ele quem enfrentou milícias digitais, desarticulou tentativas de golpe, resistiu a pressões internas e externas e, por isso mesmo, passou a ser perseguido por setores da extrema direita nacional e internacional. Não é coincidência que seu nome figure com destaque em ataques articulados que partem de interesses que ultrapassam as fronteiras do Brasil.

O que faz Merval Pereira? Em vez de reconhecer o contexto de guerra híbrida, de lawfare e de desestabilização institucional, opta por um discurso que naturaliza suspeitas e transforma ilações em quase sentenças morais. Ao afirmar que a “única saída” para Moraes é provar que as denúncias são falsas, o colunista não defende a credibilidade do STF; ele a corrói. Porque, se essa lógica prevalecer, nenhum juiz estará seguro. Bastará uma denúncia midiática, uma relação indireta, um ruído fabricado, para que a honra de um magistrado seja colocada no banco dos réus.

É evidente que conflitos de interesse devem ser investigados, e transparência é princípio republicano. Mas há uma diferença abissal entre investigar com responsabilidade e alimentar a suspeição como método político. Quando se transforma o Supremo Tribunal Federal em palco permanente de desconfiança, quem ganha não é a democracia, mas os que sempre sonharam com sua ruína. O discurso moralista seletivo já mostrou, na Lava Jato, aonde pode levar: à destruição de instituições, ao descrédito da Justiça e à ascensão do autoritarismo.

A máxima citada por Merval — “à mulher de César não basta ser honesta, precisa parecer honesta” — é usada, aqui, como arma retórica. No jornalismo responsável, a aparência não substitui o devido processo legal. No Estado de Direito, parecer não é ser. E exigir que alguém prove sua inocência para satisfazer o tribunal da opinião pública é romper com um dos pilares civilizatórios da Justiça moderna.

O que está em jogo não é apenas o nome de Alexandre de Moraes, nem o caso Banco Master isoladamente. O que se tenta, mais uma vez, é enfraquecer o STF, deslegitimar a democracia brasileira e criar o ambiente perfeito para aventuras autoritárias. A Globo já esteve desse lado da história antes — e o resultado foi trágico para o país.

Defender a democracia, hoje, passa também por denunciar esses movimentos sutis, porém perigosos, de normalização do ataque institucional. Não se trata de blindar ninguém, mas de recusar a lógica do linchamento midiático. Quem salvou — e vem salvando — a democracia brasileira não pode ser apunhalado em nome de uma falsa moralidade que, no fundo, serve aos velhos interesses de sempre.

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