
Há algo de profundamente doentio quando jornais que se autoproclamam guardiões da democracia passam a brincar de tribunal de exceção. As acusações feitas por O Globo e O Estado de São Paulo contra o ministro Alexandre de Moraes não são apenas graves — são perigosas. Não pelo conteúdo, mas pela absoluta ausência de provas. O que se oferece ao leitor? “Disseram”, “alguém comentou”, “ouvi dizer”. Eis o novo padrão probatório da grande imprensa: o cochicho elevado à categoria de fato.
Desde quando boatos passaram a substituir documentos? Desde quando a honra de um ministro da Suprema Corte pode ser lançada à lama com base em rumores de bastidor? Se isso não é jornalismo de esgoto, é, no mínimo, um jornalismo de conveniência.
Não sejamos ingênuos. Todos sabem — inclusive os colunistas que fingem neutralidade — que Alexandre de Moraes se tornou alvo preferencial da extrema direita e de parcelas do Centrão desde que teve a ousadia institucional de fazer o óbvio: impedir um golpe de Estado. Sim, impedir. Não “interpretar”, não “opinar”. Impedir. O pecado original do ministro foi defender a Constituição quando muitos a rasgavam em praça pública com a complacência cúmplice de setores da elite política e econômica.
Como não conseguiram silenciá-lo pela violência explícita, tentam agora o método mais antigo e eficaz: o assassinato de reputações. Não com balas, mas com manchetes. Não com tanques, mas com insinuações. A direita falhou em matá-lo de um jeito; agora, articula-se para matá-lo de outro.
A acusação de que o ministro teria pedido favores ou atuado em benefício de um banco junto ao presidente do Banco Central — sem provas, sem documentos, sem nada além de fumaça — não atinge apenas Alexandre de Moraes. Atinge um dos fundamentos da República: a ação isenta e imparcial da Suprema Corte. Quando se normaliza a calúnia contra um ministro do STF, o que se está dizendo é simples e brutal: nenhum juiz está a salvo se contrariar interesses poderosos.
E aqui cabe a ironia amarga: os mesmos jornais que se dizem preocupados com a “segurança jurídica” são os primeiros a dinamitar a confiança nas instituições. Clamam por estabilidade enquanto espalham instabilidade. Falam em responsabilidade enquanto praticam a mais absoluta irresponsabilidade editorial.
Não se trata de blindar ministros contra críticas — críticas são legítimas, necessárias e saudáveis. Trata-se de exigir o mínimo civilizatório: provas. Fatos. Evidências. Sem isso, não é jornalismo; é panfleto. Não é denúncia; é difamação. Não é vigilância democrática; é serviço prestado a quem nunca aceitou o resultado das urnas.
Quando a imprensa troca o compromisso com a verdade pelo flerte com a intriga, não é a Suprema Corte que está no banco dos réus. É a própria democracia.
Padre Carlos




