Política e Resenha

Entre a Crítica e o Abismo: O Frágil Equilíbrio da Nossa Democracia

 

Por Padre Carlos

 

Há momentos na história de uma nação em que precisamos parar, respirar fundo e olhar para dentro de nós mesmos — não como cidadãos divididos por cores políticas, mas como guardiões de algo muito maior e mais precioso: o tecido delicado da democracia que nossos antepassados costuraram com lágrimas, sangue e esperança.

A manchete do Correio Brasiliense nos convida a essa reflexão dolorosa e necessária. Não se trata de silenciar vozes — jamais. A crítica é o oxigênio que mantém viva a chama democrática. Mas existe uma linha tênue, quase invisível, entre questionar decisões e tentar demolir as próprias fundações do templo que nos abriga a todos.

O Direito Sagrado de Discordar

Quem nunca sentiu aquela inquietação no peito ao discordar de uma decisão judicial? Quem nunca questionou, na intimidade do pensamento ou no calor de uma conversa, se determinada sentença foi justa? Essa inquietação é humana, é legítima, é essencialmente democrática.

Criticar o Supremo Tribunal Federal não é heresia — é cidadania. É o exercício pleno daquilo que nos diferencia de regimes autoritários: a liberdade de pensar diferente, de expressar descontentamento, de exigir transparência. Nossos ministros não são deuses em suas togas; são servidores públicos sujeitos ao escrutínio de uma sociedade vigilante.

Mas há algo profundamente diferente acontecendo nas sombras desse debate.

Quando a Crítica se Transforma em Dinamite

Existe uma diferença abissal entre dizer “discordo desta decisão” e gritar “esta instituição precisa ser destruída”. Entre questionar um julgamento e incitar o desrespeito sistemático às decisões judiciais. Entre defender mudanças e promover o caos.

O que estamos testemunhando não é apenas um debate acalorado — é um projeto deliberado de erosão institucional. Não se questiona mais uma decisão específica; questiona-se a própria legitimidade do tribunal. Não se critica um ministro por seus argumentos; demoniza-se a corte inteira como inimiga do povo.

E aqui reside o perigo que deveria fazer tremer a alma de cada brasileiro que valoriza a paz, a ordem e a liberdade: quando atacamos as instituições que garantem o Estado de Direito, não estamos defendendo a democracia — estamos cavando sua sepultura.

O Eco Distante de Outros Tempos

A história nos ensina, com sua voz rouca e insistente, que democracias não morrem sempre com tanques nas ruas. Às vezes, morrem lentamente, envenenadas pela desconfiança sistemática em suas instituições. Morrem quando se normaliza o discurso de que juízes são “ativistas”, de que o Congresso é “corrupto demais para funcionar”, de que apenas um salvador — um líder forte, acima das instituições — pode nos resgatar.

Vimos esse filme em outros países, em outras épocas. Sempre começa com a mesma narrativa sedutora: “as instituições estão contra o povo”. E sempre termina com o mesmo desfecho trágico: um povo sem instituições, à mercê do arbítrio e da força.

Seria um Golpe?

A palavra “golpe” ressoa em nossos ouvidos com o peso de nossa história recente. Carrega cicatrizes que ainda não fecharam completamente. Mas precisamos ter a coragem de nomear o que vemos.

Golpe não é apenas a ruptura violenta e imediata. Golpe pode ser também o processo gradual de deslegitimação institucional. É quando se cria um ambiente onde descumprir decisões judiciais se torna “ato de coragem”. É quando se incentiva o desrespeito sistemático ao Judiciário. É quando se planta, dia após dia, a semente da dúvida sobre a validade das instituições que nos protegem.

Se um governante, qualquer governante, incentiva seus apoiadores a ignorar decisões judiciais, a desrespeitar o STF, a considerar-se acima da lei — sim, estamos diante de algo que ameaça o pacto democrático. Talvez não seja um golpe no sentido clássico, mas é certamente um golpe lento contra a ordem constitucional.

A Responsabilidade de Cada Um de Nós

Este não é momento para omissões confortáveis. Não é hora de dizer “não me meto em política” enquanto assistimos ao desmantelamento silencioso das proteções que nos mantêm civilizados.

Cada brasileiro carrega, neste momento, uma responsabilidade histórica. Não importa de que partido você gosta, que candidato você apoiou, que ideologia você abraça. O que importa é: você defende que vivamos sob o império da lei, ou sob o império da força?

Defender o STF não significa concordar com todas as suas decisões — significa defender que exista um tribunal para tomar essas decisões, mesmo quando discordamos. Significa aceitar que, numa democracia, às vezes perdemos. E que a solução para perder não é destruir o jogo, mas jogar melhor na próxima vez.

O Que Nos Espera do Outro Lado?

Se permitirmos que o discurso de destruição institucional prevaleça, o que teremos? Um país onde cada autoridade decide quais leis seguir conforme sua conveniência? Um território onde a força substitui o direito? Uma terra onde nossos filhos crescerão sem a proteção de instituições sólidas?

Ou escolheremos, ainda que com dor, ainda que com discordâncias, defender o espaço sagrado das instituições? Escolheremos brigar dentro do jogo democrático, respeitando as regras, por mais imperfeitas que sejam?

A Escolha que Define uma Geração

Há momentos na vida de uma nação em que cada geração é convocada a fazer uma escolha definitiva sobre que país quer legar aos que virão depois. Este é o nosso momento.

Podemos criticar, sim. Podemos e devemos questionar, exigir, fiscalizar. Mas não podemos — não devemos — permitir que essa crítica legítima seja sequestrada por aqueles que, no fundo, não querem melhorar as instituições, mas sim destruí-las para instaurar algo muito mais perigoso em seu lugar.

A democracia brasileira é como uma planta delicada que nossos pais e avós cultivaram em solo difícil. Ela tem raízes ainda frágeis, galhos que às vezes verga sob o vento. Mas é nossa. E se a deixarmos morrer por negligência ou por adesão ao canto sedutor dos que prometem “consertar tudo” destruindo tudo, nossos filhos nos perguntarão, com olhar acusador: por que vocês não fizeram nada?

O Correio Brasiliense nos lembra de algo fundamental: defender as instituições não é defender os poderosos. É defender a única proteção que os fracos têm contra os poderosos. É defender o único escudo que impede que a vontade de um se imponha pela força sobre todos os outros.

Que tenhamos sabedoria para distinguir crítica de destruição. Que tenhamos coragem para defender a democracia, mesmo quando ela nos dá resultados que não gostamos. E que tenhamos humildade para reconhecer que, sem instituições sólidas, somos todos órfãos numa terra sem lei.

O abismo nos espreita. Mas ainda há tempo de escolher não dar o passo fatal.