(Padre Carlos)
Querem dar um golpe em Jerônimo Rodrigues. Não é força de expressão, não é exagero retórico, não é paranoia política. É método. É roteiro. É velha prática de coronelismo travestido de análise técnica, agora operando — de forma ainda mais grave — a partir de dentro do próprio campo progressista. As peças estão sendo colocadas no tabuleiro, uma a uma, com a frieza de quem sabe exatamente o que está fazendo.
O primeiro movimento do golpe é sempre o mesmo: criar o clima. E o clima se cria com pesquisas. Não importa se são internas, vazadas seletivamente, ou “externas” convenientemente publicizadas. O discurso da vez já está pronto: Jerônimo inicia o último ano de mandato com alta rejeição, fragilizado, sem viabilidade eleitoral. O detalhe perverso é que esse discurso não surge como debate político legítimo, mas como sentença antecipada, repetida à exaustão até virar “verdade”.
Os altos índices de rejeição são apresentados como fato consumado, sem contexto, sem comparação histórica, sem análise do ambiente nacional, sem considerar o peso de crises herdadas, da conjuntura econômica, da violência estrutural que atravessa décadas na Bahia. Transformam números — muitas vezes voláteis — em arma política. E quando as pesquisas não bastam, entram em cena as vaias, os constrangimentos pontuais, os recortes calculados da realidade. O Carnaval vira laboratório político, as ruas do interior viram tribunal sumário. Tudo serve para sustentar a narrativa de que o governador perdeu o povo.
O segundo passo do golpe é simbólico: a desconstrução da autoridade. Dizem que Jerônimo perdeu capital político, que está desconectado da sociedade, que não empolga. Como se governar um estado complexo como a Bahia fosse concurso de popularidade. Como se o mesmo critério não tivesse sido relativizado inúmeras vezes para outros governantes do próprio campo progressista. A crítica deixa de ser cobrança legítima e passa a ser demolição deliberada.
O terceiro movimento é talvez o mais escandaloso: a corrosão interna. Parte da direção do PT, que deveria ser linha de sustentação política do governo, estabelece prazos, condicionantes, ultimatos. Março de 2026 vira espada sobre a cabeça do governador. A candidatura, que deveria ser natural, passa a ser tratada como favor. Não é avaliação política; é chantagem institucional. É criar instabilidade para depois apontar a instabilidade como prova de inviabilidade.
Em seguida, vem o uso seletivo dos problemas reais. Segurança pública? Existe, é grave, é histórica — mas agora é tratada como se tivesse nascido neste governo. Saúde? Tem filas, tem gargalos — mas convenientemente se apaga o subfinanciamento crônico e as heranças acumuladas. O objetivo não é resolver, é amplificar. Não é corrigir, é explorar politicamente.
O capítulo dos empréstimos é outro exemplo do golpe em andamento. Os R$ 27 bilhões autorizados são apresentados como escândalo em si, sem debate sério sobre investimentos, prazos, infraestrutura, ou comparação com outros estados. Em ano pré-eleitoral, transforma-se um instrumento de política pública em munição eleitoral. A pergunta não é “para que serve?”, mas “como desgasta?”.
Enquanto isso, a comunicação do governo, com falhas reais, é explorada até o limite. Cada frase fora do tom vira crise. Cada ruído vira manchete. Não para melhorar a gestão, mas para consolidar a imagem de um governador inseguro, frágil, incapaz de liderar. E quando essa imagem começa a colar, surge o nome “salvador”: Rui Costa. Não como construção coletiva, mas como sombra permanente, como comparação injusta, como recado velado de que o governador atual é provisório.
Esse é o golpe: não o da direita clássica, mas o mais perverso, o golpe silencioso, palaciano, que se faz com planilhas, pesquisas, vazamentos e discursos supostamente responsáveis. É o golpe que não derruba com tanques, mas com narrativas. Não com quartéis, mas com bastidores. Não com inimigos declarados, mas com “companheiros” impacientes.
O resultado é uma profecia autorrealizável: enfraquece-se o governador para depois dizer que ele está fraco. Cria-se a desconfiança popular para depois usá-la como justificativa. Retira-se o chão político para, em seguida, acusá-lo de não se sustentar em pé.
Não se trata apenas da reeleição de Jerônimo Rodrigues. Trata-se do respeito à democracia interna, à lealdade política e à compreensão de que governos populares não se fortalecem com facadas nas costas. O que está em curso não é um debate legítimo sobre rumos, mas uma tentativa descarada de interrupção política antes da largada eleitoral.
A história é implacável com os que conspiram no escuro achando que agem em nome do realismo. Golpes, mesmo os travestidos de análise, sempre cobram seu preço. E quase nunca o pagam apenas os alvos — paga todo o campo político que permitiu que eles acontecessem.





