Por Padre Carlos
A política em Vitória da Conquista vive um paradoxo que se arrasta há mais de duas décadas: ao mesmo tempo em que celebra a tradição de lideranças consolidadas, sufoca o surgimento de novas vozes e ideias. José Raimundo Fontes e Waldenor Pereira, ambos deputados e fundadores do PT desde 1980, construíram trajetórias respeitáveis e acumularam capital político inegável. Mas é preciso dizer com todas as letras: a perpetuação indefinida nos mesmos postos não é sinal de força — é sintoma de estagnação.
O que vemos hoje não é simplesmente a permanência de bons quadros. Trata-se da cristalização de um modelo que concentra poder, recursos e espaços de decisão nas mesmas mãos, criando um verdadeiro conglomerado político que se estende do Sudoeste da Bahia até a Chapada Diamantina. Essa estratégia de expansão territorial, embora politicamente eficiente, revela uma lógica de autoperpetuação que colide frontalmente com os princípios democráticos de alternância e renovação.
A esquerda brasileira, e particularmente o Partido dos Trabalhadores, nasceu sob o signo da transformação, da ruptura com as velhas práticas oligárquicas, da oxigenação constante dos quadros dirigentes. Como explicar, então, que em pleno 2026 ainda estejamos reféns das mesmas dinâmicas de décadas atrás? Como justificar que um município do porte e da importância de Vitória da Conquista — um dos principais colégios eleitorais do interior baiano — não tenha conseguido renovar suas principais lideranças estaduais em mais de vinte anos?
A proximidade com o presidente Lula, frequentemente evocada como trunfo eleitoral, não pode ser usada como salvo-conduto para a eternização de mandatos. O próprio Lula, aliás, sempre defendeu a formação de novas lideranças e o rejuvenescimento dos quadros partidários. A relação com o Planalto deve servir para fortalecer o projeto político, não para blindar carreiras individuais.
É verdade que Waldenor e Zé Raimundo diversificaram sua atuação, ampliando bases eleitorais para além de Conquista. Mas essa estratégia, longe de ser virtuosa, evidencia uma preocupação quase exclusiva com a manutenção do mandato, em detrimento da formação de sucessores e da construção coletiva de um projeto de longo prazo para a região.
O surgimento de nomes como Alexandre Xandó, Jorge Solla e Fabrício Falcão não deve ser visto como ameaça, mas como oportunidade histórica de renovação. A política não pode ser tratada como propriedade privada de alguns poucos, por mais dedicados e competentes que sejam. A democracia exige circulação de ideias, de rostos, de perspectivas. Exige que se abra espaço para quem tem fome de transformação, para quem ainda não se acomodou nas facilidades do poder.
Vitória da Conquista merece mais do que a repetição confortável do conhecido. Merece a ousadia do novo, a coragem da ruptura, a força da renovação. O campo da esquerda precisa olhar para si mesmo com honestidade e perguntar: estamos construindo um projeto de poder popular ou apenas administrando feudos eleitorais?
A resposta a essa pergunta definirá não apenas o futuro dos mandatos em disputa, mas a própria credibilidade da esquerda conquistense diante de uma sociedade que já não se satisfaz com as velhas promessas e os mesmos protagonistas de sempre.
O caldeirão político ferve, como bem se disse. Mas é preciso que desse calor surja algo genuinamente novo — não apenas o reaquecido de sempre, servido em nova embalagem. A hora da renovação não é amanhã. É agora.





