
O destino tem uma forma curiosa de agir. Ele não pede licença, não explica seus métodos, não se compromete com a permanência. Às vezes, limita-se a oferecer um instante — curto, intenso, definitivo — e depois se retira, como quem sabe que já fez o suficiente. Foi assim conosco. Não nos concedeu a continuidade, mas nos deu o encontro. E há encontros que, sozinhos, justificam uma vida inteira.
Há dores que não nascem da perda, mas da consciência. Não é a lembrança que fere; a memória, quando é verdadeira, costuma ser até generosa. O que machuca é a impossibilidade de reviver. É saber que o tempo, esse rio sem retorno, passou exatamente pelo ponto mais belo e seguiu adiante sem olhar para trás. A saudade não sangra pelo que foi, mas pelo que não poderá mais ser.
Ainda assim, se me fosse dada a chance de escolher, eu escolheria tudo outra vez. Cada palavra dita e cada silêncio mal compreendido. Cada riso breve e cada despedida incompleta. Porque atravessar a vida sem nunca ter te conhecido seria uma forma mais cruel de solidão. Há ausências que empobrecem o mundo; a sua presença, ainda que breve, o ampliou.
Os anos passaram — sempre passam — e com eles vieram outros rostos, outras histórias, outras rotinas. Mas há um território dentro de mim que permaneceu intocado pelo tempo. Um espaço silencioso, quase sagrado, onde o seu nome não ecoa, mas repousa. Não é apego, é reconhecimento. Algumas pessoas não ficam; elas permanecem.
Mesmo à distância, mesmo sem saber, você continua. Continua no modo como certas músicas me atravessam, no jeito como algumas tardes se tornam inexplicavelmente melancólicas, na estranha sensação de que algo essencial já foi vivido. O amor, quando é verdadeiro, não exige presença física. Ele se instala na memória do ser e ali cria morada.
Talvez o destino tenha sido mais sábio do que supomos. Ao negar a permanência, preservou a beleza. Ao impedir a repetição, salvou o encanto. O que não se desgasta pelo cotidiano permanece inteiro na lembrança. E há histórias que só são eternas porque não tiveram continuação.
No fim, compreendo: não fomos feitos para durar, mas para significar. E isso, por si só, já vale mais que o mundo inteiro.




