Política e Resenha

Capituraram um Presidente, Mas Despertaram um Continente Inteiro

 

 

 

Padre Carlos

O mundo assiste, atônito, a mais um capítulo grotesco do imperialismo contemporâneo. Sob o discurso cínico da “transição segura”, os Estados Unidos anunciam a captura de um chefe de Estado soberano, a ocupação militar de um país latino-americano e a administração direta de seu território, como se a história tivesse parado no século XIX. A Venezuela não é um protetorado, não é um quintal, não é um laboratório geopolítico. É uma nação, com povo, memória, dor e dignidade.

O que se tenta vender como operação cirúrgica, sem baixas, sem danos, sem traumas, é, na verdade, uma violação brutal do direito internacional, da soberania nacional e da autodeterminação dos povos. A captura de Nicolás Maduro, a transferência forçada para solo norte-americano e a exibição de imagens como troféu de guerra não são símbolos de força moral, mas de decadência ética. Capturaram um presidente, mas não tocaram o coração da Venezuela — porque o coração de um povo não se sequestra com fuzis nem com narrativas fabricadas.

Este absurdo não diz respeito apenas aos venezuelanos. Diz respeito a toda a América Latina, marcada por golpes, intervenções, bloqueios econômicos e governos tutelados. O silêncio, neste momento, não é neutralidade: é cumplicidade. Rússia e China precisam ir além de notas diplomáticas protocolares. A hora exige ação política firme, multilateral, nos fóruns internacionais, na ONU, no Conselho de Segurança, para impedir que a barbárie se normalize sob o verniz da legalidade.

E o Brasil não pode se esconder atrás de eufemismos. Lula, reconhecido como um dos grandes líderes mundiais do Sul Global, tem a responsabilidade histórica de liderar uma contraofensiva diplomática, articulando América Latina, África e Ásia em defesa do povo venezuelano. Não se trata de defender governos, mas de defender princípios: soberania, paz, diálogo, democracia sem tutelas externas.

Eu vi esse mesmo medo estampado no rostos dos estadunidense quando as torres gêmeas foram atacadas por um agressor externo. Vi o choque, a sensação de vulnerabilidade, o trauma coletivo. É a esse sentimento humano que apelo agora. Nenhum povo merece acordar sob ocupação estrangeira, nenhum jovem merece crescer sob o som de botas militares que não falam sua língua nem respeitam sua história.

Apelo também ao povo norte-americano, àqueles que discordam da barbárie cometida em seu nome. A democracia não se exporta em porta-aviões. A liberdade não nasce da humilhação de outros povos. A paz mundial não se constrói com sanções, invasões e prisões espetacularizadas.

A história é implacável com impérios. Eles sempre caem. O que fica é a memória dos que resistiram. A Venezuela resiste. A América Latina resiste. E nós, que lutamos há quase meio século, não aceitaremos que o século XXI seja governado pela lógica da força bruta disfarçada de ordem internacional.