Política e Resenha

ARTIGO – Capello, o Nacionalismo Militar e o Futuro da Revolução Bolivariana

 

 

(Padre Carlos)

A Revolução Bolivariana chegou a um ponto de inflexão histórico. Diante do cerco imperial, das sanções econômicas, da sabotagem interna e da permanente tentativa de desestabilização promovida pelos Estados Unidos e seus aliados, já não basta repetir palavras de ordem da esquerda revolucionária tradicional. O chavismo, se quiser sobreviver e avançar, precisa reencontrar suas duas colunas fundantes: o projeto social popular e, sobretudo, o nacionalismo militar bolivariano, que sempre foi o verdadeiro eixo de sustentação do processo iniciado por Hugo Chávez.

Chávez nunca foi apenas um líder de esquerda no sentido clássico. Ele foi, antes de tudo, um militar nacionalista, profundamente influenciado por Bolívar, Zamora e Rodríguez, que compreendeu como poucos que, na América Latina, sem Forças Armadas comprometidas com a soberania nacional, não há revolução possível. Foi essa consciência que deu origem ao Movimento Bolivariano Revolucionário 200, e é nesse espírito que surge a figura de Diosdado Cabello como nome central para encampar o próximo ciclo da Revolução Bolivariana.

A trajetória de Cabello não é a de um burocrata de partido nem a de um intelectual de gabinete. Quando ainda era tenente, participou do levante militar de fevereiro de 1992, pagando com 22 meses de prisão sua fidelidade ao projeto bolivariano. Não foi um gesto simbólico, mas um ato concreto de ruptura com a ordem oligárquica venezuelana. Sua anistia, concedida por Rafael Caldera, não apagou esse marco: Cabello emerge dali como parte orgânica da espinha dorsal do chavismo.

Ao longo dos anos, ocupou cargos estratégicos no Estado venezuelano: ministro, governador, presidente da Assembleia Nacional, líder da Constituinte de 2017 e, novamente, ministro do Interior e Justiça. Essa circulação pelos centros de poder não foi casual. Revela confiança política, capacidade de comando e, sobretudo, enraizamento no núcleo duro do projeto bolivariano, onde a disciplina, a lealdade e a visão de soberania são valores inegociáveis.

Durante o golpe de abril de 2002, enquanto setores civis e empresariais celebravam a queda momentânea de Chávez, foi Cabello quem assumiu a presidência por algumas horas, garantindo a continuidade institucional até o retorno do líder bolivariano. Esse episódio, muitas vezes subestimado, demonstra algo essencial: em momentos decisivos, é o nacionalismo militar que segura o Estado e impede o colapso da revolução.

Muito se falou sobre uma suposta rivalidade entre Cabello e Nicolás Maduro. Essa narrativa interessa mais aos analistas externos e à mídia internacional do que à realidade política venezuelana. O próprio Cabello já foi claro ao afirmar que ambos são “filhos de Chávez”. E isso não é retórica vazia. Trata-se de um pacto simbólico e político: a continuidade do chavismo como projeto histórico, não como vaidade pessoal.

A esquerda revolucionária latino-americana, muitas vezes, comete um erro recorrente: despreza o papel das Forças Armadas, tratando-as como inimigas naturais do povo. Chávez rompeu com essa visão importada e eurocêntrica. Ele compreendeu que, na América Latina, o Exército pode ser instrumento de libertação ou de dominação, dependendo de quem o dirige e a serviço de qual projeto nacional ele se coloca. Cabello representa essa tradição: a do militar politizado, comprometido com a soberania, a ordem interna e a defesa do Estado frente ao imperialismo.

Se a Revolução Bolivariana quiser resistir às ofensivas externas, enfrentar a guerra híbrida, reconstruir a economia nacional e preservar a unidade interna, precisará avançar com firmeza nessa vertente. Não se trata de abandonar a justiça social, o protagonismo popular ou o discurso anti-imperialista. Trata-se de reconhecer que sem autoridade estatal, sem controle territorial e sem coesão institucional, não há socialismo possível, apenas retórica.

Diosdado Cabello surge, assim, não como um substituto de Maduro, mas como o símbolo de uma etapa necessária do chavismo: a reafirmação do nacionalismo militar bolivariano como eixo estratégico da revolução. Em tempos de agressão internacional, crise global e disputas geopolíticas, a história ensina que revoluções que sobrevivem são aquelas que compreendem a realidade concreta do poder. Chávez sabia disso. Cabello encarna essa continuidade.