
Padre Carlos
Já tive muitas perdas. Empregos que um dia acreditei serem família, lugares onde depositei lealdade, sonhos e tempo de vida. Amores que julguei ser a referência da minha felicidade, o chão firme onde eu pisaria até o fim da estrada. E perdas definitivas, irreversíveis, marcadas pela morte de quem amamos. Todas elas intensas. Todas elas merecedoras de luto. Porque a dor da perda sempre deixa cicatrizes. Perder alguém ou algo que a gente ama realmente dói — dói na carne, dói na memória, dói na alma. E dói para sempre.
Basta recordar. Basta permitir que a lembrança atravesse a mente como um vento súbito. Um rosto, uma risada, um gesto simples. E então a dor vem inteira, avassaladora, como se fosse a primeira vez. Perder um filho — meu Deus do céu — que dor lacerante. Não há palavra que sustente tamanha ausência. Perder o companheiro de vida, perder a mãe, perder o pai, perder alguém que nos ensinou o sentido de existir. Como isso nos fere profundamente. Como isso reorganiza a nossa vida à força, sem pedir licença.
E a pergunta insiste, martelando o coração: como eu vou viver sem essa pessoa? Como seguir adiante quando a ausência ocupa mais espaço do que a presença jamais ocupou? O poeta já disse, com a precisão de quem conhece o cais da saudade: “Já partiram tantos barcos, eu já chorei em tanto cais”. Barcos são vidas. São histórias que se afastam no horizonte, deixando para trás um silêncio pesado. Amigos, parentes, amores, animais — todos eles partem, e cada partida arranca um pedaço de nós.
Recentemente, tomei conhecimento do drama de alguém ligado à nossa família. Uma dor que muitos insistem em minimizar, mas que é real, profunda e devastadora. Ela perdeu o seu cão de estimação. Perdeu o companheiro de patas. Perdeu aquele ser que vivia dia e noite ao seu lado, que não exigia explicações, que não cobrava desempenho, que apenas estava ali. Fiel. Presente. Amoroso.
Aquele cãozinho era sentido de vida. Era rotina, era afeto, era companhia silenciosa nos dias difíceis. Estava ali sem pedir nada em troca, apenas doando amor e carinho. E quando ele se foi, levou junto um mundo inteiro. O coração ficou dilacerado, atravessado por um luto que muitos não compreendem, mas que só quem ama um animal conhece de verdade.
Não é exagero. Só quem ama um animal entende esse vazio que se instala, essa casa que fica maior demais, esse silêncio que machuca. Só quem já viveu esse tipo de perda sabe que o luto não se mede pela espécie, mas pela intensidade do amor. Ela faz parte da nossa família, e hoje eu compreendo mais do que nunca o que ela está sofrendo. Porque o amor verdadeiro, seja por pessoas ou por animais, deixa marcas eternas.
Cabe a nós entender algo essencial: o amor é tão forte que não termina com a ausência. Ele permanece. Fica gravado na memória, nas lembranças, nos gestos repetidos sem perceber. O luto é o preço do amor, e as cicatrizes são a prova de que sentimos profundamente. Não se trata de esquecer, mas de aprender a viver carregando. Porque quem amamos nunca vai embora por completo. Eles continuam vivendo em nós — na saudade, na dor, e, sobretudo, no amor que não morre.




