Política e Resenha

ARTIGO – Praia, Abuso e Silêncio: Quando o Verão Vira Ameaça ao Cidadão

 

(Padre Carlos)

Eu não pretendia comentar o que vivi na praia de Piatã, em Salvador, nesta semana de final de ano. Preferi, num primeiro momento, o silêncio constrangido de quem não quer estragar o descanso da família nem transformar um dia de lazer em conflito. Mas o que aconteceu comigo ultrapassa o campo do incômodo pessoal e entra no território da denúncia pública, da cidadania ferida e do direito do consumidor desrespeitado.

Sentei-me tranquilamente em uma barraca de praia. Consumi três latas de cerveja, um coco e um guaraná. Nada além do comum, nada que justificasse surpresa. Quando pedi a conta, veio o choque: R$ 180. Não bastasse o valor completamente desproporcional ao consumo, fui informado que este valor estava incluído as cobranças adicionais absurdas — R$ 50 apenas por sentar na barraca e mais R$ 30 pelo chamado “serviço”. Nenhuma informação clara, nenhum aviso prévio visível, nenhum cardápio ostensivo que justificasse tal prática. Apenas a conta e a intimidação.

Sou um sessagenário, estava com minha família, e a reação ao questionar foi ainda mais grave: o barraqueiro e seus funcionários deixaram claro que eu não sairia dali se não pagasse. Não era mais uma relação comercial; era uma situação de constrangimento, de ameaça velada, de abuso de poder. Naquele instante, compreendi que o melhor caminho era pagar e ir embora inteiro. Literalmente inteiro.

Dias depois, ao assistir pela televisão o caso de Porto de Galinhas, em Pernambuco — onde turistas foram agredidos após divergência sobre cobrança abusiva de cadeiras e guarda-sol — tive a dimensão real do risco que corri. Saí no lucro, sim, porque poderia ter sido humilhado ainda mais ou até agredido. O que aconteceu comigo em Salvador e o que aconteceu com turistas em Porto de Galinhas fazem parte do mesmo fenômeno: a transformação de praias brasileiras em territórios sem lei, onde o consumidor é refém e o medo substitui o diálogo.

A pergunta que ecoa é simples e perturbadora: onde estão as autoridades baianas? Onde está a fiscalização do Procon, da prefeitura, da Secretaria de Turismo, da polícia administrativa? Será que há conivência? Ou estamos diante de um Estado que simplesmente fecha os olhos para práticas abusivas que mancham a imagem do turismo, violam o Código de Defesa do Consumidor e colocam em risco a integridade física e moral das pessoas?

Não se trata de demonizar trabalhadores de barracas de praia, muitos deles lutando honestamente pela sobrevivência. Trata-se de separar trabalho digno de exploração, comércio legítimo de extorsão disfarçada, serviço de intimidação. Cobrança abusiva, preço não informado, venda casada, ameaça ao consumidor — tudo isso é ilegal. E quando o poder público se omite, o abuso vira regra.

O turismo na Bahia, especialmente em Salvador, é patrimônio econômico, cultural e simbólico. Mas nenhum cartão-postal sobrevive quando o visitante passa a associar praia a medo, lazer a constrangimento, consumo a violência psicológica. Praia não pode ser território de milícia informal, nem espaço onde a idade, a fragilidade ou a presença da família se tornam fatores de vulnerabilidade.

Este artigo não nasce do ressentimento, mas da responsabilidade. Calar seria ser cúmplice. Falar é um dever cívico. Que as autoridades se manifestem, que a fiscalização atue, que os abusos sejam coibidos e que o cidadão — morador ou turista — volte a sentar numa barraca de praia sem receio de não conseguir se levantar em paz. Porque quando o verão vira ameaça, algo muito grave está acontecendo com a nossa noção de justiça e de Estado.