
Padre Carlos
Há momentos na história em que os fatos se acumulam com tal violência simbólica que já não é possível fingir neutralidade. As últimas 48 horas vividas pela Venezuela não são apenas mais um capítulo da crise latino-americana; são a exposição crua de um projeto histórico de dominação que insiste em tratar povos soberanos como propriedades estratégicas. O sequestro de Nicolás Maduro e Cília Flores, conduzidos como prisioneiros por uma operação estrangeira, marca uma ruptura grave com o direito internacional, a autodeterminação dos povos e a própria noção de soberania nacional.
Não se trata aqui de defender governos, partidos ou lideranças específicas. Trata-se de defender um princípio civilizatório: nenhuma nação tem o direito de governar outra pela força. Quando Donald Trump declara que os Estados Unidos “governarão a Venezuela até uma transição segura”, ele não fala como democrata, mas como administrador colonial tardio, embalado por um discurso de segurança que esconde interesses energéticos, geopolíticos e econômicos. O petróleo venezuelano, estimado em centenas de bilhões de barris, volta a ser o verdadeiro protagonista dessa tragédia.
A resposta institucional do Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela, ao declarar a ausência involuntária do presidente e transferir constitucionalmente o poder para a vice-presidente Delcy Rodríguez, não foi um golpe, mas um antigolpe jurídico. Um gesto de resistência dentro da legalidade venezuelana que desmontou o cálculo imperial de instalar um governo fantoche sob tutela estrangeira. Washington esperava submissão; encontrou institucionalidade, coesão e reação.
Delcy Rodríguez emerge, nesse cenário, como um símbolo político inesperado, mas poderoso. Mulher, economista, ex-chanceler, conhecedora profunda do Estado e das ruas, ela assume a presidência interina afirmando o óbvio que precisa ser repetido: a Venezuela será governada pelos venezuelanos. Ao ecoar Simón Bolívar, ela não recorre ao passado por nostalgia, mas por necessidade histórica. Bolívar não é memória; é método de resistência.
O que o Pentágono e seus estrategistas não compreenderam é que a Venezuela de hoje não é a de décadas atrás. Existe um tecido social organizado, formado por conselhos comunais, movimentos populares e estruturas de poder territorial que funcionam como um verdadeiro sistema imunológico social. Quando o corpo é atacado, cada célula reage. Não por comando externo, mas por consciência coletiva. Essa é a força que torna qualquer projeto de ocupação um erro político, moral e logístico.
A mobilização popular, longe da caricatura da violência, tem assumido a forma de organização comunitária, proteção de infraestruturas estratégicas, resistência civil e afirmação cultural. O hino nacional ressignificado em ritmos populares, a presença massiva das mulheres como organizadoras de base, a comunicação digital disputando narrativas nas redes sociais: tudo isso revela que a soberania, hoje, também se trava no campo simbólico.
No cenário internacional, a postura de países do Sul Global revela que o mundo já não aceita, passivamente, a lógica do unilateralismo. O posicionamento do Brasil, da Colômbia e do México, ao rejeitar governos impostos pela força, indica que a América Latina começa a reencontrar uma voz própria. Não se trata de ideologia, mas de memória histórica: sabemos o preço pago quando tanques substituem votos.
Essas 48 horas não definem apenas o futuro da Venezuela. Elas testam o próprio conceito de mundo multipolar, onde a legitimidade interna e o apoio internacional podem enfrentar a força bruta. A lição que emerge é clara e incômoda para os impérios: um povo organizado é mais difícil de dominar do que um território ocupado.
A Venezuela resiste não porque é perfeita, mas porque é soberana. E defender a soberania venezuelana hoje é defender o direito de todos os povos de escolherem seu próprio destino, sem helicópteros, sem correntes e sem governos impostos de fora.




