Política e Resenha

ARTIGO – Vitória da Conquista refém do preço dos combustíveis

 

 

 

Padre Carlos

Vitória da Conquista convive há anos com uma realidade que pesa no bolso, sufoca a economia local e desafia a lógica do mercado: o combustível vendido na cidade figura entre os mais caros do país. Não se trata de sensação, tampouco de discurso ideológico. É um fato repetidamente constatado por quem abastece, por quem trabalha, por quem depende do transporte para sobreviver.

O recente aumento do ICMS sobre combustíveis apenas escancarou um problema antigo. A gasolina, o diesel e até o gás de cozinha atingem valores que ultrapassam a média da Bahia e, em determinados momentos, rivalizam com os maiores preços do Brasil. O impacto é direto no custo de vida, no transporte público, no comércio, na inflação local e na renda das famílias.

O mais intrigante — e ao mesmo tempo revelador — é que basta sair do perímetro urbano, ou mesmo circular pela BR ainda dentro do município, para que o preço da gasolina comece a cair. O combustível é o mesmo. O imposto é o mesmo. O município é o mesmo. A diferença está no território — e nos domínios invisíveis que organizam o mercado.

Não é necessário apontar nomes, nem levantar acusações diretas. O histórico recente do país mostra que estruturas de poder econômico sabem se proteger muito bem, sobretudo quando articuladas, influentes e profundamente enraizadas. A prudência jurídica recomenda silêncio sobre certos fatores. A consciência cidadã, porém, exige reflexão.

Como explicar que, dentro da cidade, os preços se mantenham elevados de forma tão uniforme? Como justificar que o consumidor conquisteiro pague mais caro do que em cidades vizinhas, mesmo enfrentando desemprego, renda média menor e alto custo de vida? A livre concorrência, princípio básico do capitalismo, parece não atravessar algumas esquinas de Vitória da Conquista.

O combustível caro não é apenas um problema econômico; é um problema social. Ele encarece o transporte escolar, pressiona o preço dos alimentos, afeta aplicativos de mobilidade, desestimula investimentos e penaliza quem mais precisa. Em uma cidade polo, que atende dezenas de municípios do sudoeste baiano, o efeito se espalha como ondas.

É legítimo perguntar: até quando a população aceitará pagar essa conta sem questionar? O silêncio coletivo favorece a manutenção de práticas que prosperam à sombra da normalização. Questionar não é crime. Comparar preços não é subversão. Exigir transparência não é radicalismo.

Vitória da Conquista é uma cidade trabalhadora, resiliente, estratégica. Não pode continuar refém de preços que não dialogam com sua realidade social. O combustível não pode ser um privilégio de poucos, nem um instrumento silencioso de concentração econômica.

Quando o preço baixa fora do “território controlado”, a mensagem é clara: o problema não é o imposto apenas. O problema é mais profundo. E enquanto não for enfrentado com seriedade, quem continuará pagando a conta é o povo — sempre o povo.