Política e Resenha

Cartel que não existia: governo Trump volta atrás e expõe a farsa contra Maduro

 

(Padre Carlos)

Quando li a notícia de que os Estados Unidos recuaram da acusação de que Nicolás Maduro chefiava o chamado Cartel de los Soles, fui imediatamente transportado para Karl Marx e sua frase imortal em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte: a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa. O problema é que, no caso do imperialismo norte-americano, a farsa continua matando gente — civis, militares, inocentes — como se ainda fosse tragédia, mas sem qualquer constrangimento moral.

O roteiro é conhecido, cansado e perigosamente eficaz. Primeiro constrói-se um inimigo absoluto. Depois fabrica-se uma narrativa moralmente irretocável: armas de destruição em massa, cartéis internacionais, ameaça global, defesa da democracia. Em seguida, vêm as bombas, os helicópteros, as operações “cirúrgicas” que deixam cadáveres espalhados pelo chão. Só depois, quando o estrago está feito, a verdade aparece — tímida, burocrática, escondida em notas técnicas ou em atualizações discretas de denúncias judiciais.

Foi assim no Iraque. Saddam Hussein foi caçado, humilhado e executado em nome de armas de destruição em massa que nunca existiram. A CIA não sabia? Sabia. Fingiu não saber. E milhões pagaram com a vida, com a destruição de um país inteiro, com o colapso de uma civilização milenar. Agora, a história tenta se repetir na Venezuela, com novos figurinos, mas com o mesmo desprezo pela verdade, pelo direito internacional e pela vida humana.

Mais de cem pessoas morreram na operação que resultou na captura de Maduro em Caracas. Civis, danos colaterais, estatísticas incômodas que rapidamente desaparecem do noticiário. Tudo isso para prender um homem acusado de chefiar um cartel de drogas que, de repente, deixa de ser cartel. Não era uma organização criminosa formal, dizem agora. Era apenas um “sistema de clientelismo”, uma “cultura de corrupção”. Ora, corrupção existe em quase todos os países do mundo — inclusive, e especialmente, nos que se arrogam o direito de julgar os outros.

A pergunta que ecoa, incômoda e inevitável, é simples: a CIA não sabia? O Departamento de Justiça não sabia? O governo dos Estados Unidos não sabia que exagerava, distorcia ou falseava a realidade? Sabia. Sempre soube. Mas a verdade nunca foi o objetivo. O objetivo sempre foi político, geopolítico, econômico: controle de territórios, recursos naturais, influência regional, submissão de governos que ousam desafiar a ordem imposta por Washington.

Se Rússia e China tivessem se omitido, Maduro teria tido o mesmo destino de Saddam Hussein. Não por justiça, não por democracia, mas por conveniência estratégica. A acusação de cartel foi apenas o álibi moral, assim como foram as armas químicas no Oriente Médio. Quando o álibi cai, ninguém responde pelos mortos. Ninguém pede desculpas. Ninguém é julgado.

O mais grave é que essa farsa continua encontrando plateia. Setores da imprensa reproduzem versões oficiais sem o mínimo senso crítico. Organismos internacionais se calam ou relativizam. E o mundo segue aceitando que a soberania dos países seja violada em nome de narrativas que, mais cedo ou mais tarde, se revelam falsas ou grotescamente infladas.

Marx estava certo. A história se repete. Mas ela não se repete por fatalidade. Repete-se porque os poderosos insistem nos mesmos métodos e porque muitos se recusam a aprender com os erros do passado. A Venezuela de hoje é o espelho do Iraque de ontem. E, se nada mudar, outro país ocupará esse lugar amanhã.

A farsa imperial continua. E, como sempre, quem paga o preço mais alto não são os líderes, mas os povos.