Política e Resenha

ARTIGO – OPERAÇÃO RESOLUÇÃO ABSOLUTA: QUANDO A DERROTA VEM DE DENTRO

 

 

Padre Carlos

 

Há derrotas militares que não se explicam pela força do inimigo, mas pela decomposição interna de quem deveria defender. A chamada Operação “Resolução Absoluta”, que culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de Cilia Flores, não foi apenas uma ação ousada das forças especiais dos Estados Unidos. Foi, sobretudo, a exposição brutal de um Estado penetrado, corroído e traído por dentro. Quando se analisa friamente os fatos, os dados técnicos e as imagens disponíveis, a conclusão é inevitável: algo de profundamente podre cheira nessa operação.

Nenhuma força especial do mundo, por mais sofisticada que seja, sequestra um chefe de Estado em exercício, no coração da capital, sem superioridade aérea contestada, sem reação antiaérea efetiva, sem dispersão de meios, sem alerta precoce e sem comando ativo, se não houver colaboração interna. Isso não é retórica ideológica, é doutrina militar elementar. A guerra moderna não perdoa improvisos, e muito menos permite milagres operacionais.

O primeiro colapso ocorreu muito antes do primeiro helicóptero cruzar o céu de Caracas. O fracasso foi de inteligência e contrainteligência. O nível de precisão com que o alvo foi localizado, apesar da mudança constante de local de pernoite, só é possível com fonte humana no núcleo íntimo do poder. Não se trata de interceptação eletrônica apenas. Trata-se de entrega. A rotina do presidente foi completamente mapeada, seus deslocamentos previsíveis, seus padrões comportamentais conhecidos. Isso indica infiltração profunda, vigilância prolongada e uma contrainteligência incapaz — ou conivente.

A seguir veio o colapso do comando e controle. Uma estrutura militar que perde comunicação nos primeiros minutos e não dispõe de meios alternativos de enlace já está derrotada antes do combate começar. Conhecendo a doutrina de guerra eletrônica dos Estados Unidos, é inconcebível que a FANB dependesse exclusivamente de comunicações convencionais. Isso não é erro técnico: é negligência grave ou sabotagem deliberada. Exércitos sérios operam com redundância, descentralização e autonomia tática. Nada disso funcionou.

A neutralização simultânea de Fuerte Tiuna, da Base Aérea de La Carlota e do Cerro El Volcán não foi apenas eficiente; foi cirúrgica demais para encontrar um sistema preparado. Os meios aéreos estavam concentrados, expostos, não dispersos nem protegidos. Caças de superioridade aérea foram destruídos em solo. Isso viola qualquer manual básico de defesa aeroespacial. Diante de ameaça real, aeronaves de combate decolam, não esperam ordens eternas nem ficam estacionadas como alvos decorativos. Quando não decolam, há duas hipóteses: ordem para não agir ou paralisia total do comando. Ambas são devastadoras e igualmente suspeitas.

A defesa antiaérea praticamente não existiu. Helicópteros voaram a baixa altitude sobre áreas urbanas densas, foram vistos, filmados, acompanhados visualmente pela população civil, e mesmo assim não foram abatidos. Se estavam visíveis para celulares, estavam a alcance de fogo. A explicação de “superioridade tecnológica” não se sustenta sozinha. Tecnologia não anula completamente a reação humana quando há prontidão, disciplina e ordem de combate. O que houve foi relaxamento, fadiga psicológica e uma perigosa sensação de que “nada iria acontecer”. Esse é o terreno fértil para a derrota.

No anel de segurança presidencial, o contraste é brutal. O Batalhão de Honra lutou. Houve combate real, prolongado, intenso. Ali houve lealdade, sacrifício e sangue. Combatentes cubanos tombaram no cumprimento do dever. Isso desmonta qualquer narrativa de ausência total de resistência. O problema é que eles ficaram sozinhos. Não houve reforço, não houve plano de extração, não houve rotas alternativas, não houve coordenação com forças especiais em prontidão. Defenderam até onde puderam, abandonados por uma estrutura que já havia colapsado acima deles.

O excesso de confiança completa o quadro. Um chefe de Estado sob ameaça permanente não circula livremente, não relaxa protocolos, não se torna previsível. A previsibilidade é o maior presente para a inteligência inimiga. Fortificações estáticas, por mais robustas que sejam, não substituem mobilidade, alerta antecipado e reação integrada. A chamada “fortaleza” falhou porque o sistema que deveria protegê-la já estava morto.

Por fim, a narrativa de ausência de baixas norte-americanas deve ser tratada com ceticismo. Operações desse tipo são também peças de propaganda estratégica. Trump não fala para informar, fala para intimidar. A mensagem é clara: “podemos fazer isso com qualquer um”. Mas a verdade completa ainda virá à tona, e ela passará inevitavelmente pela identificação de quem abriu as portas por dentro.

A Operação “Resolução Absoluta” não foi apenas uma vitória dos Estados Unidos. Foi uma derrota moral, institucional e estratégica da segurança venezuelana. Quando a derrota acontece sem combate aéreo, sem reação integrada e com precisão cirúrgica absoluta, ela não vem do inimigo. Ela nasce no interior do próprio sistema. Preparar-se para que isso nunca mais aconteça não é desejar guerra. É entender que só a preparação séria, a depuração interna e a lealdade real evitam que a história se repita.