Política e Resenha

ARTIGO – O Recado Está Dado: Jerônimo Assume o Comando e Encerra a Tutela Política na Bahia

 

 

 

Padre Carlos

 

Na política, há momentos em que o silêncio fala, mas há outros em que a palavra precisa ser dita de forma direta, quase pedagógica, para que não reste dúvida. Foi exatamente isso que o governador Jerônimo Rodrigues fez ao mandar um recado claro, firme e carregado de simbolismo às chamadas “viúvas de Rui Costa” e a todos que ainda insistem em enxergar a política baiana sob o prisma da tutela, da herança automática ou da sombra permanente de antigos líderes.

Quando Jerônimo afirma, sem rodeios, “se alguém tá com dúvida aí que o governador não tá pré-candidato, eu sou”, ele não está apenas anunciando uma intenção eleitoral. Está, sobretudo, demarcando território político, afirmando autoridade e deixando explícito que o tempo da interrogação acabou. A mensagem é simples e dura: há um governador no exercício pleno do poder, com projeto próprio, liderança reconhecida e disposição para conduzir o grupo político que governa a Bahia.

A metáfora usada por ele é reveladora. Ao comparar a política a uma equipe técnica em que muitos dominam a expertise, mas poucos sabem “onde é a porta que bate”, Jerônimo toca no coração da disputa interna pelo poder. Política não é apenas currículo, formação ou capacidade técnica. Política é liderança, leitura do momento histórico, capacidade de decisão e, sobretudo, reconhecimento coletivo de quem conduz o processo. E isso, ele deixa claro, não está em debate.

O exemplo do presidente Lula não é casual. Ao citar o “jeitão flexível, amigo” de Lula, mas lembrar que “na hora da decisão é dele”, Jerônimo se ancora em um arquétipo consagrado da política brasileira. Ele se coloca, conscientemente, nesse mesmo lugar simbólico: o do líder que dialoga, acolhe, constrói consensos, mas que não terceiriza decisões estratégicas. Esse é um recado direto não apenas aos aliados, mas também aos partidos da base, às lideranças regionais e às elites políticas que insistem em testar limites.

Quando ele afirma manter relações de amizade com Otto Alencar, Lídice da Mata, Carletto e a família Gedel, mas ressalta que “na hora da decisão é a hierarquia do lugar”, o governador reafirma um princípio básico da política institucional: alianças não anulam comando, amizade não substitui liderança e coalizão não significa ausência de centro decisório. Em tempos de fragmentação política e disputas silenciosas de bastidores, essa afirmação ganha ainda mais peso.

Há, nesse discurso, um componente estratégico evidente. Jerônimo não rompe com ninguém, não hostiliza aliados históricos, não desqualifica o legado de Rui Costa. Pelo contrário: ele reorganiza o tabuleiro, desloca o eixo da narrativa e diz, com todas as letras, que a Bahia tem governador, tem liderança e tem rumo. Isso é, ao mesmo tempo, um gesto de maturidade política e uma tentativa clara de estancar movimentos internos que apostam na desestabilização ou na antecipação de cenários sucessórios.

Para quem acompanha a política baiana de perto, o recado é inequívoco: acabou o tempo da transição indefinida. Jerônimo Rodrigues assume o protagonismo, reivindica o comando do grupo, se apresenta como pré-candidato natural e encerra, ao menos no discurso, a era das dúvidas fabricadas. Quem quiser caminhar junto, sabe agora quem lidera. Quem insistir em olhar pelo retrovisor, corre o risco de ficar para trás.