Por um amor das artes
Belo Horizonte sempre teve uma relação intrínseca entre os minerais e o mistério. Se outrara Carlos Drummond de Andrade lamentava a montanha pulverizada, sentenciando que “não há mais mina”, a capital mineira ressurge agora em uma proteção muito mais preciosa e inesgotável: a da alma humana. É nesse cenário de transição, onde a tradição do Clube da Esquina encontra o pulsar da contemporaneidade, que emerge a figura de Francisco Ribero — ou simplesmente Paco , para aqueles que já se deixaram cativar pela proximidade de sua obra.
Chico não é apenas um compositor; ele é um lapidador de sentimentos. Em seus versos, a Serra do Curral deixa de ser apenas um horizonte geográfico para se tornar um horizonte de possibilidades. Sua escrita carrega a densidade de quem compreende que a vida, em sua essência, é um eterno processo de aprendizado e retomada.
O Renascer como Imperativo Poético
Ao analisarmos a lírica de Paco, percebemos que ele não se esquivava da dor, mas a utilizava como matéria-prima para a transcendência. Quando ele canta “Preciso viver, voltar a aprender / vamos nos sentir felizes para parar de sofrer” , ele estabelece um pacto de honestidade com o ouvinte. Não há fórmulas mágicas, há urgência de movimento.
A profundidade de sua obra reside na simplicidade cortante de conceitos fundamentais: fé e esperança . Para Ribero, esses não são termos abstratos de dicionário, mas sim ferramentas de sobrevivência. Ele nos conduz por um caminho onde a felicidade não é um destino fortuito, mas uma conquista de quem teve a coragem de “procurar alguém que torne feliz” e de quem não aceita o luto do direito perdido.
A Estética do Desabrochar
Um dos momentos mais tocantes de sua composição é a metáfora do renascimento. O verso “Renascer para a vida, desabrochar sem dor” revela uma sensibilidade quase botânica. Paco observa a natureza humana com a mesma paciência com que se observa uma flor rompendo o asfalto.
Ainda que surjam imagens enigmáticas em sua poética — como o “dizer da bruxa” que evoca um misticismo ancestral das Minas Gerais — o cerne de sua mensagem permanece luminoso: a transformação da tristeza em encontro. Ele entende que quem domina o idioma do amor detém a chave para decifrar os “sentimentos que a alma nos traz”.
Por que Paco Ribero é a voz que precisamos agora?
A nova geração de compositores de BH carrega um fardo pesado: o de honrar o passado sem se tornar sombra dele. Francisco Ribero consegue o feito de ser reverente à tradição, mas com uma pulsação própria. Sua música tem o cheiro de terra molhada e a claridade das manhãs de sol no cerrado.
“O sorriso que faz com toda a beleza como a natureza o seu mundo de voltar a viver…”
Nestas palavras, Paco resume o que a arte deve ser: um espelho da resiliência natural. Ele nos lembra que, mesmo quando a montanha física se esvai, a montanha interna — feita de caráter, melodia e poesia — permanece inabalável.
Que os filhos de Paco Ribero transcendem as serras e alcançam todos aqueles que, em algum momento, esqueceram como se fizeram para desabrochar. Minas, afinal, ainda produz riquezas; mas agora, elas não se pesam em arrobas, mas sim na medida exata de um coração que se permite recomeçar.
Padre Carlos





