Política e Resenha

Anti-imperialismo é da boca pra fora ou Trump está blefando?

 

 

 

Padre Carlos

 

As notícias que chegam da Venezuela parecem disputar entre si quem grita mais alto — e não quem diz a verdade. De um lado, a presidente venezuelana e a cúpula chavista batem o pé, reafirmando soberania, autonomia e a velha liturgia bolivariana de que “quem manda aqui somos nós”. Do outro, Donald Trump — com seu estilo bruto, performático e deliberadamente provocador — proclama aos quatro cantos que é ele quem governa a Venezuela, como se Caracas fosse um protetorado informal de Washington. No meio desse duelo retórico, está um país inteiro, esmagado entre propaganda interna e intimidação externa.

A pergunta que se impõe não é apenas quem manda, mas como se exerce o poder — e com que custos humanos, econômicos e simbólicos.

Há algo de profundamente revelador no contraste entre a retórica anti-imperialista do chavismo e a desenvoltura com que os Estados Unidos, especialmente sob Trump, se colocam como árbitros do destino venezuelano. Durante quase três décadas, o discurso bolivariano construiu uma identidade política assentada na resistência ao imperialismo norte-americano. Simón Bolívar foi erguido a mito fundador de um projeto que prometia soberania real, justiça social e emancipação latino-americana. Não por acaso, o país mudou de nome, alianças regionais foram criadas, leis foram aprovadas para blindar o Estado de interferências externas e a narrativa da “pátria sitiada” passou a organizar toda a vida política nacional.

Esse anti-imperialismo não é mero detalhe retórico. Ele estruturou instituições, moldou a doutrina militar, justificou leis restritivas, fechou o espaço cívico e foi usado como escudo moral para silenciar dissidentes. Em nome da resistência, criminalizou-se a crítica; em nome da soberania, confundiu-se Estado com governo; em nome de Bolívar, concentrou-se poder.

E, no entanto, quando Trump ameaça, sanciona, confisca ativos, reconhece governos paralelos e fala como se a Venezuela fosse um troféu em disputa, a reação concreta do regime parece paradoxalmente limitada ao campo do discurso. A retórica inflamada não se traduz em capacidade real de enfrentamento. Porta-aviões, sanções financeiras, bloqueios comerciais e pressões diplomáticas mostram que o poder material continua profundamente assimétrico.

É aqui que a contradição se torna gritante: o anti-imperialismo segue sendo invocado com fervor, mas funciona mais como instrumento de controle interno do que como estratégia eficaz de defesa nacional. Serve para manter coesão entre elites governistas, mobilizar bases simbólicas e justificar repressões, enquanto o país se fragiliza econômica e socialmente.

Os dados sociais — ainda que incompletos, dada a opacidade estatística — são eloquentes. Mortalidade infantil volta a patamares anteriores ao chavismo. O PIB per capita despenca. A desigualdade cresce. Países vizinhos, submetidos às mesmas turbulências globais, avançam onde a Venezuela retrocede. O discurso socialista permanece intacto; a realidade social, não.

Nada disso significa absolver o imperialismo norte-americano. Ao contrário: as sanções unilaterais, a asfixia econômica e a ingerência explícita dos Estados Unidos configuram uma violação clara da autodeterminação dos povos. Trump não blefa quando fala em controle — ele fala a linguagem crua do poder imperial, que dispensa sutilezas diplomáticas. O blefe, se existe, está na promessa de que essa pressão traria democracia, prosperidade ou liberdade. A história latino-americana mostra exatamente o oposto.

Mas também é preciso dizer, sem rodeios: resistir ao imperialismo não pode ser pretexto para a falência do Estado nem para a negação de direitos básicos. Quando o anti-imperialismo se converte apenas em slogan, ele perde seu conteúdo emancipatório e vira instrumento de dominação doméstica. A soberania que não se traduz em bem-estar popular é soberania vazia. A revolução que não melhora a vida concreta do povo vira encenação.

No fim, o projeto bolivariano corre o risco de se tornar um grande teatro político: cenários grandiosos, discursos épicos, símbolos heroicos — e bastidores em ruínas. Trump grita que manda; o governo responde que resiste. Entre o grito e a resposta, a população sobrevive.

Talvez a pergunta correta não seja se Trump está blefando, mas quem paga o preço dessa disputa de narrativas. E a resposta, infelizmente, parece cada vez mais óbvia.