
(Padre Carlos)
Há uma confusão perigosa que insiste em contaminar o debate público no Brasil, especialmente quando o tema é segurança pública. Confunde-se força com arbítrio, autoridade com violência, combate ao crime com licença para matar. É preciso dizer com todas as letras, sem medo e sem hipocrisia: o Estado Democrático de Direito só se sustenta com uma polícia forte, profissional e rigorosamente comprometida com os direitos humanos e com a Constituição.
O policial não é juiz. Não é promotor. Muito menos carrasco. Sua missão é prender, investigar, conter, proteger a sociedade e entregar o acusado à Justiça. Quando um agente do Estado julga, condena e executa com a própria arma, não estamos diante de segurança pública, mas de barbárie institucionalizada. Isso não é ordem. É o colapso do Estado de Direito.
A Constituição Federal é clara: ninguém está acima da lei. Nem o criminoso, nem o policial, nem o governante. A ideia de que execuções extrajudiciais resolvem o problema da violência é uma falácia histórica, estatística e moral. Onde o Estado mata fora da lei, ele perde autoridade, alimenta o ciclo da violência e fortalece o próprio crime organizado que diz combater.
Na Bahia, tenta-se agora empurrar para o colo do governador os índices alarmantes de violência, como se o problema tivesse surgido ontem, como se fosse obra exclusiva de um mandato. Isso é desonestidade intelectual. A crise da segurança pública é fruto de décadas de descaso, políticas improvisadas, ausência de inteligência policial, abandono social, desigualdade estrutural e falta de um projeto consistente de Estado.
Não se constrói segurança pública séria em quatro anos quando o problema foi cultivado por quarenta. O governador sabe — e os números confirmam — que a violência não nasceu em seu governo. Mas também sabe que isso não pode servir de desculpa para relativizar princípios, flexibilizar direitos ou naturalizar abusos. Combater o crime não autoriza ninguém a rasgar a Constituição.
Defender direitos humanos não é defender bandido. É defender a civilização contra a barbárie. É proteger o cidadão comum, o morador da periferia, o jovem negro, o trabalhador que vive entre o medo do crime e o medo da polícia. Direitos humanos existem justamente para conter o abuso do poder, sobretudo quando esse poder vem armado.
Uma política de segurança pública eficaz exige inteligência policial, investimento em tecnologia, formação continuada, controle externo, câmeras corporais, planejamento estratégico e ações preventivas que integrem educação, saúde, políticas sociais e desenvolvimento econômico. O resto é discurso fácil para palanque, que rende aplauso imediato, mas cobra um preço alto em vidas e em democracia.
Quem defende execuções sumárias não quer justiça; quer vingança. Quem estimula a polícia a matar fora da lei não fortalece o Estado; o enfraquece. E quem tenta transformar o governador em bode expiatório para uma tragédia histórica presta um desserviço ao debate público.
A Bahia precisa, sim, de uma polícia firme. Mas, acima de tudo, precisa de uma polícia legal, constitucional, humana e responsável. Porque quando o Estado mata sem julgamento, ele se iguala ao criminoso. E quando isso acontece, todos nós perdemos: a democracia, a justiça e a esperança de um país menos violento e mais civilizado.




