Política e Resenha

ARTIGO – Fé, Poder e o Escândalo do INSS: quando o rebanho desconfia do pastor

 

 

 Carlos Roberto

A cena é perturbadora e simbólica: um dos pastores mais influentes do país, Silas Malafaia, irrompe em indignação pública contra uma senadora evangélica, Damares Alves, acusando-a de leviana por afirmar que igrejas e líderes religiosos estariam envolvidos em um escândalo de fraudes no INSS. O embate, porém, não termina no grito. Provocada, a senadora responde com documentos, nomes, pedidos de quebra de sigilo e uma lista que lança sombras densas sobre o que muitos fiéis ainda chamam de “obra de Deus”.

O que está em jogo aqui vai muito além de uma disputa pessoal entre Malafaia e Damares. Trata-se de uma crise profunda de credibilidade do campo evangélico brasileiro, cada vez mais entrelaçado com o poder político, o dinheiro público e estruturas que deveriam ser transparentes, mas operam muitas vezes na penumbra. Quando a fé se mistura sem freios com interesses financeiros e partidários, o altar deixa de ser lugar sagrado e passa a se parecer com balcão de negócios.

Ao divulgar que quatro igrejas — Adoração, Assembleia de Deus Ministério do Reino novo, Ministério Deus é Fiel  e Igreja Evangélica Campo de Anatote — são alvo de pedidos de quebra de sigilo na CPMI do INSS, Damares não apenas respondeu a um desafio. Ela expôs uma ferida aberta. Pastores conhecidos, líderes de rebanhos numerosos, agora figuram em investigações que envolvem desvio de recursos de aposentados e pensionistas, gente simples, muitos deles evangélicos, que confiaram no sistema e, talvez, também em seus líderes espirituais.

É aqui que a metáfora bíblica se impõe com força: se tudo isso for comprovado, estaremos diante de ovelhas sendo pastoreadas por lobos. Lobos vestidos de terno, com Bíblia na mão, microfone aberto e forte presença nas redes sociais. O mais grave não é apenas o possível crime financeiro, mas a instrumentalização da fé para legitimar poder, enriquecer estruturas e silenciar críticas internas. Quem ousa questionar é logo acusado de perseguir a igreja ou atacar Deus.

A reação de Malafaia revela outro problema sério: a tentativa de transformar qualquer investigação em ataque pessoal ou ideológico. Em vez de defender transparência, ética cristã e apuração rigorosa, prefere-se o confronto retórico, a desqualificação moral e o discurso de guerra cultural. Isso não protege a igreja; ao contrário, aprofunda o descrédito e afasta ainda mais aqueles que já olham com desconfiança para o evangelicalismo político.

Damares, ao afirmar que sofre pressões de pessoas e instituições interessadas em dificultar as investigações, toca em um ponto sensível: há hoje no Brasil grandes igrejas e grandes pastores com poder suficiente para constranger autoridades, influenciar narrativas e mobilizar multidões. Quando esse poder não aceita fiscalização, ele deixa de ser religioso e se torna perigosamente autoritário.

O povo evangélico brasileiro não é cúmplice automático de seus líderes. É, em grande parte, trabalhador, pobre, honesto e movido por fé sincera. Justamente por isso merece saber a verdade. A fé cristã não pode servir de escudo para corrupção, nem de moeda de troca em esquemas que lesam o INSS e atacam os mais vulneráveis. Se há inocentes, que sejam absolvidos com clareza. Se há culpados, que respondam com o rigor da lei.

No fim, a pergunta que ecoa não é quem venceu o embate entre Malafaia e Damares, mas quem está pagando a conta dessa mistura explosiva entre religião, política e dinheiro público. Enquanto líderes brigam, o rebanho sangra. E quando a fé é traída, o dano não é apenas material: é espiritual, social e moral. Isso, sim, deveria indignar a todos.