Política e Resenha

ARTIGO – (O Enigma dos Ratos: Estratégia ou Cortina de Fumaça na Política de Vitória da Conquista)

 

 

(Padre Carlos)

A política, em sua essência mais profunda, é a arte de manipular símbolos, imagens e narrativas. Em tempos de redes sociais, esses símbolos ganham ainda mais força, pois dispensam longas explicações e operam diretamente no campo emocional do eleitor. Quando a vereadora Lara Fernandes (Republicanos) publica uma foto segurando um anfíbio e lança a frase provocativa “Quem beija sapo não tem medo de ratos”, ela não está fazendo um comentário folclórico ou biológico. Trata-se, claramente, de uma jogada calculada no xadrez da política de Vitória da Conquista, pensada para gerar engajamento, conflito e posicionamento público.

Como observador atento da cena política local, é preciso ir além da superfície do post e descer ao subsolo da metáfora. Na linguagem política, o “rato” quase nunca é um animal literal. Ele representa aquele que age nas sombras, que corrói estruturas por dentro, que abandona o projeto coletivo ao primeiro sinal de crise ou que articula silenciosamente para manter privilégios e o status quo. A grande pergunta que ecoa nos corredores da Câmara Municipal e nos bastidores da Prefeitura é simples e incômoda: afinal, quem são os ratos?

No contexto do discurso de Lara Fernandes, o recado tem endereço relativamente claro. O alvo simbólico aponta para o núcleo duro da prefeita Sheila Lemos, grupo com o qual Lara já esteve alinhada e do qual agora busca se diferenciar publicamente. Ao marcar sua independência política — inclusive em contraste com a posição institucional do próprio marido, o vice-prefeito Dr. Alan — a vereadora constrói uma narrativa de enfrentamento. Nessa lógica, os “ratos” seriam os aliados da prefeita ou operadores políticos que, na visão dela, tentariam deslegitimar seu projeto, bloquear sua ascensão ou enquadrá-la dentro de uma hierarquia que ela já não aceita mais.

Esse movimento não é aleatório. Ele dialoga diretamente com um público específico: o eleitorado conservador mais radicalizado, muitas vezes identificado como ultradireita. Para esse segmento, discursos moderados, técnicos ou conciliadores soam fracos ou irrelevantes. O que mobiliza é o confronto, a linguagem dura, o simbolismo agressivo e a postura antissistema. Ao usar metáforas fortes e flertar com o conflito aberto, Lara Fernandes busca se apresentar como a “direita autêntica” de Vitória da Conquista, alguém que não teme romper, provocar ou tensionar o poder estabelecido.

Ao mesmo tempo, há um segundo objetivo evidente: cercar politicamente o núcleo governista. A estratégia é simples e conhecida. Ao atacar por fora, ela tenta atrair para si setores conservadores que estejam descontentes com a gestão municipal. É um movimento de pinça: de um lado, cria ruído e desgaste para o governo; de outro, oferece abrigo discursivo para quem se sente desconfortável, mas ainda não encontrou uma alternativa clara dentro do campo da direita local.

Apesar disso, é preciso cautela ao analisar previsões entusiasmadas sobre uma possível “surpresa” nas urnas. A política profissional, especialmente em eleições proporcionais como a de deputado estadual, é menos romântica e muito mais implacável. Ela exige uma tríade que dificilmente se sustenta apenas com engajamento digital: carisma ampliado, recursos financeiros robustos e estrutura de poder capilarizada.

Lara Fernandes possui visibilidade e um nicho fiel, mas a transição de uma votação de vereadora para uma disputa pela Assembleia Legislativa da Bahia exige presença em dezenas de municípios, diálogo com lideranças locais e capacidade de furar bolhas digitais. Campanhas estaduais são caras, demandam logística, material, equipes e alianças. Sem acesso expressivo ao fundo partidário ou a grandes financiadores, o fôlego costuma acabar antes da linha de chegada. Além disso, ao se afastar do grupo da prefeita Sheila Lemos, Lara abre mão da máquina administrativa municipal, algo que, goste-se ou não, pesa enormemente no jogo eleitoral. A independência pode soar heroica no discurso, mas costuma ser frágil do ponto de vista eleitoral.

É por isso que uma leitura mais fria e estratégica aponta para outro objetivo central dessa candidatura: o coeficiente eleitoral, ou quociente partidário. Ao fazer dobradinha com o deputado federal Márcio Marinho, Lara Fernandes cumpre um papel fundamental dentro da lógica dos Republicanos. Ela ajuda a concentrar votos da direita conquistense dentro da legenda, fortalecendo o partido, contribuindo para a reeleição de Marinho e ampliando o peso da sigla no cenário nacional. No xadrez partidário, nem toda candidatura nasce para vencer; algumas existem para sustentar, puxar votos e garantir espaço institucional.

No fim das contas, o post do sapo e dos ratos cumpriu perfeitamente sua função: gerou barulho, engajamento, debate e tensão política em Vitória da Conquista. Mas a história mostra que, na política real, o ruído das redes sociais muitas vezes é abafado pelo peso das estruturas de poder no dia da eleição. Lara Fernandes joga com habilidade para a arquibancada da ultradireita, mas quem decide o placar final não são os likes, e sim os cálculos frios do quociente eleitoral, das alianças e da máquina partidária.