Política e Resenha

ARTIGO – “Há grandes amores que precisam sossegar: quando o fogo aprende a iluminar”

 

 

(Padre Carlos)

Vivemos tempos em que o amor parece disputar espaço com o espetáculo. Ama-se como quem grita, expõe, corre, consome. Ama-se com pressa, com urgência, com medo de perder. Nesse cenário, a frase “há grandes amores que precisam sossegar” surge quase como uma heresia emocional. Afinal, quem nos ensinou que amor de verdade é o que arrebenta, que tira o fôlego, que desorganiza tudo e todos ao redor.

Mas talvez aí esteja o equívoco central da nossa cultura afetiva: confundir intensidade com profundidade, barulho com verdade, paixão com permanência.

O amor explosivo tem seu encanto. Ele chega como tempestade de verão, arranca certezas, acelera o coração, muda rotinas, cria uma sensação de eternidade imediata. É belo, é necessário, é humano. Porém, quando permanece nesse estado de combustão contínua, começa a cobrar um preço alto. Cansa. Consome. Exige demais. O amor que nunca sossega vira exigência constante, vira ansiedade, vira disputa, vira medo de perder aquilo que, paradoxalmente, já começa a se perder pelo excesso.

Sossegar não é esfriar. Sossegar é aprender a respirar dentro do amor. É permitir que a paixão, com o tempo, encontre outra forma de existir. O amor maduro não precisa provar nada o tempo todo. Ele não grita, não se impõe, não ameaça ir embora. Ele fica. E ficar, hoje, é um dos atos mais revolucionários que existem.

O tempo tem um papel decisivo nessa travessia. A paixão tem relógio acelerado; o amor, não. A paixão quer tudo agora; o amor aprende a esperar. Quando o amor sossega, ele deixa de ser um evento extraordinário e passa a ser uma presença cotidiana. Está no silêncio confortável, na conversa sem pressa, no respeito aos espaços, no cuidado que não sufoca. É um amor que não interrompe a vida; ele caminha com ela.

A poeta Matilde Campilho toca nesse ponto com rara sensibilidade ao sugerir que o amor precisa acalmar para que possa ser vivido por inteiro. Um amor que não sossega acaba ocupando tudo, devorando tudo, impedindo que outras dimensões da existência floresçam. Já o amor sereno não anula o mundo; ele amplia o mundo. Ele não exige exclusividade absoluta da vida, mas integração.

Talvez o grande amadurecimento afetivo seja justamente esse: entender que o amor que permanece não é o que queima sem parar, mas o que aprende a iluminar sem destruir. Um amor que aceita os ritmos, as falhas, as imperfeições. Um amor que não precisa ser extraordinário todos os dias para ser verdadeiro. Um amor que, ao invés de nos arrancar de nós mesmos, nos devolve a nós com mais inteireza.

No fundo, “há grandes amores que precisam sossegar” não é um aviso de fim, mas um convite à continuidade. É o reconhecimento de que o amor, para durar, precisa trocar o incêndio pelo calor, a vertigem pela raiz, o espetáculo pela presença. Porque o amor que sossega não termina. Ele fica. E ficar, num mundo de descartes, é a maior prova de amor que existe.