
Padre Carlos
Há algo de podre que não querem que venha à tona. E o cheiro não vem do nada: vem do modus operandi conhecido da imprensa lavajatista, aquela mesma que se arvora em paladina da moralidade quando convém, mas que se mostra nada republicana quando o alvo é escolhido a dedo. O roteiro é velho, o enredo é previsível e os personagens são conhecidos.
A campanha contra o ministro Dias Toffoli segue essa cartilha. Manchetes insinuantes, fontes anônimas, “funcionários que dizem”, fotografias estrategicamente vazadas e um silêncio ensurdecedor sobre princípios básicos do Estado de Direito, como presunção de inocência, devido processo legal e prova documental. O objetivo não é informar: é sugerir, insinuar, contaminar.
A narrativa reapresenta um clássico: “o sítio”. Agora não mais em Atibaia, mas em formato de resort, com píer, embarcação, festas privadas e a frase-chave — repetida com descaramento — de que “embora o nome não conste nos documentos oficiais, funcionários o tratam como proprietário”. É impossível não lembrar dos pedalinhos atribuídos a dona Marisa Letícia, usados como símbolo de uma culpa construída no imaginário público, apesar da fragilidade probatória que depois veio à tona.
O caso do Resort Tayayá, em Ribeirão Claro (PR), ganha contornos ainda mais ruidosos quando se mistura cassino, jogos de azar, crianças em máquinas caça-níqueis e a informação de que o ministro é relator de investigações envolvendo atores que, em algum momento, orbitam negócios ligados ao empreendimento. Tudo isso é grave? Sim, se comprovado. Mas é justamente aí que mora a desonestidade intelectual: a transformação de suspeitas e relatos em sentença midiática.
A própria defesa afirma que os jogos existentes são vídeo loterias autorizadas pelo governo estadual e que mesas de cartas servem à recreação privada dos hóspedes, sem apostas em dinheiro. A legislação brasileira é clara: jogos de azar com dealers e apostas em dinheiro são proibidos, enquanto as vídeo loterias estaduais foram autorizadas por decisão do STF em 2020 — decisão colegiada, da qual Toffoli participou como um entre vários ministros. O que a imprensa faz? Confunde, mistura, embaralha conceitos para produzir escândalo.
Há ainda o elemento que raramente recebe o mesmo zelo investigativo: as transações empresariais envolvendo o resort, fundos de investimento, advogados de grandes grupos econômicos e relações indiretas com pessoas que figuram em processos no STF. Tudo isso exige apuração séria, técnica e institucional — não linchamento midiático. Quando a imprensa se antecipa à Justiça, ela não fiscaliza o poder: usurpa-o.
O mais chocante é a cara de pau com que se admite a ausência de documentos oficiais e, ainda assim, se sustenta a narrativa acusatória. É a normalização do “todo mundo sabe”, do “dizem que”, do “parece ser”. Exatamente o método que corroeu a credibilidade do jornalismo durante a Lava Jato e que, ironicamente, hoje muitos fingem não reconhecer.
Se há irregularidades, que sejam investigadas pelos órgãos competentes, com provas, contraditório e transparência. O que não se pode aceitar é a moral seletiva, o jornalismo de campanha e a repetição de expedientes que já produziram injustiças históricas, condenações anuladas e um rastro de descrédito institucional.
Pedalinhos, resorts, cassinos. Os cenários mudam, mas a engrenagem é a mesma. Quando a imprensa abandona o compromisso republicano e abraça a militância travestida de denúncia, o que está em jogo não é um ministro — é a própria democracia, o Estado de Direito e a credibilidade da informação.




