Política e Resenha

ARTIGO – (José de Andrade Brazil e a Arte Silenciosa de Costurar uma Cidade)

 

 

Padre Carlos

Quem costura a alma de uma cidade?
Não são apenas prefeitos, engenheiros ou grandes empresários. Às vezes, são homens discretos, de fala mansa, mãos firmes e olhar atento, que passam a vida alinhavando muito mais do que tecidos. José de Andrade Brazil foi um desses homens. E Vitória da Conquista, talvez sem perceber plenamente, perde com sua partida um de seus artesãos mais profundos.

Há mortes que fazem barulho. Outras chegam em silêncio. A de um alfaiate pertence à segunda categoria — mas o silêncio que fica é ensurdecedor. Porque José de Andrade não era apenas alguém que costurava roupas. Ele costurava dignidade. Ajustava o mundo ponto a ponto, com a paciência de quem sabe que o essencial não pode ser apressado.

Durante 86 anos, grande parte deles vividos na Praça José Gonçalves, a poucos metros do prédio da Prefeitura, ele foi testemunha viva da história urbana de Vitória da Conquista. Viu a cidade crescer, endurecer, modernizar-se, acelerar. E permaneceu ali, como uma âncora ética, praticando um ofício que exige precisão, escuta e respeito pelo corpo do outro. Um alfaiate precisa olhar com atenção, medir com cuidado, cortar com responsabilidade. Não há espaço para improviso irresponsável. Há método. Há ética. Há arte.

Num tempo dominado pelo descartável, pelo “serve assim mesmo”, José de Andrade representava a cultura do esmero. Da costura bem feita por dentro, mesmo quando ninguém vai ver. Isso não é apenas técnica — é caráter. É uma forma de estar no mundo.

Lembro-me de observar, certa vez, um homem simples sair de uma alfaiataria com o peito mais erguido. A roupa ajudava, claro. Mas o que realmente mudava era outra coisa: o sentimento de ser visto, respeitado, levado a sério. Bons artesãos fazem isso. Eles devolvem às pessoas a consciência da própria dignidade. José de Andrade fez isso por décadas, sem discursos, sem holofotes, sem redes sociais. Apenas com linha, agulha e silêncio.

A Prefeitura de Vitória da Conquista registra oficialmente o pesar. O velório no Salão San Marcos e o sepultamento no Cemitério da Saudade cumprem o rito institucional. Mas há um outro luto, mais profundo e menos formal: o da cidade que vai perdendo seus mestres anônimos, aqueles que sustentam a vida urbana não com cargos, mas com sentido.

Em tempos de crise de referências, a morte de um alfaiate deveria nos fazer pensar. Que tipo de cidade estamos costurando? Uma feita às pressas, com costuras aparentes, ou uma cidade bem alinhavada, onde cada detalhe importa? José de Andrade Brazil pertence à linhagem rara dos que acreditavam que fazer bem feito é, em si, um ato político e moral.

Que sua memória permaneça como metáfora e lição. Porque cidades também precisam de alfaiates. E quando eles se vão, cabe a nós decidir se deixaremos o tecido social se esgarçar — ou se aprenderemos, enfim, a cuidar melhor dos pontos que nos mantêm unidos.