Política e Resenha

Saudade, Militância e Utopia: quando o passado ainda pulsa no peito

 

 

 

Quando foi que começamos a chamar de “ingenuidade” aquilo que, um dia, foi coragem?
Essa pergunta não grita. Ela sussurra. Sussurra no ouvido de quem viveu a juventude como quem vive um manifesto: com o corpo inteiro, com o coração desarmado, com a certeza — quase insolente — de que o mundo podia ser diferente.

Tenho saudade de um tempo.
E não é uma saudade qualquer. É dessas que não pedem licença, que chegam de madrugada, sentam na beira da cama e ficam. Saudade da juventude, da militância, da utopia que eu carregava como quem carrega um estandarte invisível. Saudade do que foi vivido em cada detalhe, quando tudo parecia eterno — e, por isso mesmo, não nos preparamos para o fim.

Havia abraços que eram trincheiras.
Conversas que duravam mais que a noite.
Um namoro escondido que, paradoxalmente, era mais verdadeiro do que muitas relações exibidas hoje à luz fria das redes sociais. Não sinto falta só de você — e aqui falo também no singular íntimo e no plural coletivo. Sinto falta de nós. Daquele acelerar do coração quando o encontro acontecia. Da sensação de que estávamos do lado certo da história, mesmo sem garantias, mesmo sem aplausos.

Essa saudade não é apenas afetiva. Ela é política.

Porque houve um tempo em que a militância não era cálculo, era entrega. Não era branding pessoal, era risco. Não era performance, era presença. Militávamos com os pés no chão e os olhos no horizonte. A utopia não era um slogan vazio; era um motor. Doía, cansava, frustrava — mas fazia sentido.

Hoje, o mundo parece ter trocado o verbo “transformar” pelo verbo “gerenciar”.
Gerenciar expectativas.
Gerenciar danos.
Gerenciar a própria indignação para não parecer excessivo.

No meio do caminho, algo se perdeu.

O ponto de virada talvez tenha sido silencioso. Não houve um anúncio oficial do fim das utopias. Elas simplesmente foram sendo empurradas para fora do debate, tratadas como coisa de jovens imaturos ou de velhos saudosistas. A palavra “sonho” passou a soar suspeita. A palavra “esperança”, ingênua. A palavra “militância”, inconveniente.

Mas a verdade — e ela precisa ser dita com coragem moral — é que sociedades não sobrevivem sem utopia. Democracias não respiram sem sonho. Projetos coletivos morrem quando a memória afetiva da luta é apagada.

Essa saudade que sentimos não é fuga do presente. É denúncia.
Denúncia de um tempo em que a política perdeu calor humano. Em que a técnica venceu a paixão. Em que o discurso ficou correto, mas vazio. E, talvez por isso, incapaz de mobilizar, de comover, de criar pertencimento.

Lembro de um companheiro — poderia ser qualquer um — que dizia, entre um panfleto e outro: “Se um dia isso aqui deixar de fazer o coração bater mais forte, a gente perdeu.” Na época, parecia exagero. Hoje, soa como advertência.

Não se trata de idealizar o passado. Ele tinha erros, contradições, derrotas duras. Mas tinha algo que faz falta: sentido. A sensação de que o esforço individual se dissolvia num “nós” maior. De que o amor, a política e a vida caminhavam juntos, ainda que tropeçando.

Talvez seja isso que mais doa na saudade: perceber que não sentimos falta apenas das pessoas, mas da versão de nós mesmos que acreditava sem cinismo, que amava sem medo, que lutava sem manual de instruções.

E, ainda assim, escrever sobre isso não é um exercício de melancolia estéril. É um chamado. Um lembrete incômodo de que a utopia pode até ter envelhecido, mas não morreu. Ela apenas espera ser reencontrada — não como repetição do passado, mas como reinvenção corajosa do futuro.

Porque, no fundo, enquanto houver saudade, ainda há vínculo.
Enquanto houver memória, ainda há possibilidade.
E enquanto o coração insistir em acelerar diante da ideia de um mundo mais justo, a luta — silenciosa ou ruidosa — ainda não terminou.