Política e Resenha

ARTIGO – Racismo Sem Fronteiras: quando o preconceito atravessa sotaques e expõe feridas abertas

 

 

Padre Carlos

O racismo no Brasil não é um desvio isolado nem um ruído ocasional da convivência social. Ele é uma ferida aberta, antiga, estrutural, que insiste em sangrar diante de nossos olhos. O que chama atenção, e precisa ser dito com coragem e responsabilidade, é o aumento recente de casos explícitos de injúria racial e preconceito racial envolvendo visitantes e turistas, muitos deles oriundos da região Sul do país, reproduzindo discursos de ódio que encontram no Brasil negro um alvo histórico.

Não se trata de demonizar regiões ou povos, mas de encarar fatos. O racismo não nasce do nada. Ele é ensinado, naturalizado, reproduzido em ambientes onde a branquitude é confundida com superioridade e onde a diferença é vista como ameaça. Quando esses valores atravessam fronteiras simbólicas, o resultado é violência verbal, humilhação pública e crimes que ferem a dignidade humana.

O caso da turista argentina Agostina Paz é emblemático. Flagrada cometendo atos de injúria racial no Rio de Janeiro, imitando macaco e utilizando termos racistas, ela permanece no país com tornozeleira eletrônica, passaporte apreendido e investigação concluída pela Polícia Civil. O Estado brasileiro deu uma resposta clara: racismo é crime e dá cadeia. Nem fama nas redes sociais, nem nacionalidade estrangeira, nem falsas denúncias intimidam a lei. A tentativa de inverter a narrativa, apresentando-se como vítima, apenas revela o velho expediente de quem nunca aprendeu a lidar com limites civilizatórios.

Outro episódio igualmente chocante ocorreu em Salvador, no coração do Pelourinho, território símbolo da resistência negra no Brasil. Uma turista do Rio Grande do Sul foi presa após chamar uma comerciante de “lixo”, cuspir nela e repetir, de forma quase ritualística, “eu sou branca”, como se a cor da pele fosse um salvo-conduto moral. O relato da vítima, Hanna, é devastador. Não apenas pela violência sofrida, mas pelo trauma que permanece quando o racismo deixa de ser conceito abstrato e se transforma em agressão direta, olho no olho.

Esses episódios não são exceções. São sintomas. Revelam como o racismo no Brasil continua operando com naturalidade assustadora, muitas vezes travestido de opinião, descontrole emocional ou “mal-entendido cultural”. Não é. Racismo é crime. Injúria racial é crime. Preconceito racial é crime. E mais do que isso: é um ataque direto à democracia, à justiça social e aos direitos humanos.

O Brasil precisa decidir quem quer ser. Um país que relativiza o ódio ou uma nação que protege seus cidadãos, especialmente aqueles historicamente violentados. A aplicação rigorosa da lei não é vingança; é pedagogia civilizatória. Cada punição justa é um recado claro: aqui, a dignidade humana não é negociável.

Enquanto o racismo for tratado como “excesso”, ele continuará matando simbolicamente — e às vezes fisicamente — corpos negros todos os dias. Denunciar é dever. Punir é obrigação. Silenciar é cumplicidade.