Política e Resenha

Entrevista exclusiva: PM no Pôr do Sol ressignifica o espaço urbano e aponta novo caminho para a segurança pública em Vitória da Conquista

O pôr do sol no alto do Cristo Rei do Cruzeiro, em Vitória da Conquista, ganhou novos significados. Mais do que um espetáculo natural, o cenário se transformou em ponto de encontro de famílias, artistas, comerciantes e forças de segurança. O projeto PM no Pôr do Sol não é apenas um evento cultural — é uma proposta concreta de prevenção à violência, ocupação qualificada do espaço público e reconstrução de vínculos entre a Polícia Militar e a sociedade.
Quem explica é o major Neilson, um dos coordenadores do projeto, que faz questão de afastar qualquer interpretação equivocada:
“Nosso ministério é o policiamento. O PM no Pôr do Sol não é festa por festa. Ele é uma estratégia de segurança pública com foco na prevenção.”
Cultura como ferramenta de prevenção
Tradicionalmente associada ao enfrentamento direto da criminalidade, a segurança pública ganha novos contornos quando passa a dialogar com cultura, lazer e urbanismo. Para o major Neilson, esse é o ponto central do projeto:
“Quando a Polícia Militar ocupa um espaço público com cultura e lazer, ela fortalece a parceria com a comunidade e cria um ambiente favorável para discutir segurança de forma aberta.”
O evento acontece em um local que por muito tempo carregou um estigma negativo relacionado à violência. Situado no bairro Cruzeiro — antigo bairro das Pedrinhas —, o Cristo Rei do Cruzeiro era visto por muitos como um espaço evitado, especialmente em determinados horários.
“A ocupação com famílias, música e convivência pacífica ajuda a quebrar esse estigma. As pessoas percebem, na prática, que aquele espaço é seguro”, destaca.
O espaço público como território de pertencimento
Mais do que presença policial, o projeto aposta na sensação de pertencimento. Segundo o major, quando a população passa a frequentar um local, a dinâmica do território muda:
“Você começa a gerar economia, turismo, renda e emprego. Tudo isso impacta diretamente na segurança pública.”
O Cristo Rei do Cruzeiro, ainda pouco explorado como ponto turístico, passou a receber visitantes que, muitas vezes, nunca haviam estado ali — inclusive moradores antigos da cidade.
“É comum ouvir: ‘Nunca vim aqui, é minha primeira vez’. Isso mostra o quanto o evento desperta um novo olhar sobre a cidade”, relata.
Uma retomada maior do que antes
Criado em 2019 por iniciativa do então major Lima Júnior, o PM no Pôr do Sol teve edições em 2019 e 2020, sendo interrompido pela pandemia. A retomada, cinco anos depois, veio com estrutura ampliada e expectativa ainda maior.
A decisão partiu do atual comandante regional, coronel Paulo Guimarães, alinhado à diretriz do Comando-Geral da PM, que incentiva ações preventivas e de aproximação comunitária.
“Sabíamos que não dava para simplesmente voltar. Precisávamos entregar algo maior, à altura da expectativa da população”, afirma o major Neilson.
O resultado foi uma edição com mais público, mais estrutura e maior impacto social.
Integração institucional: um pilar essencial
O projeto só se viabilizou graças à cooperação entre diferentes esferas do poder público. Governo do Estado, Prefeitura Municipal, secretarias, deputados e instituições parceiras atuaram de forma conjunta.
“Não existe prevenção em segurança pública sem cooperação. Cultura, educação, urbanismo, renda e transporte precisam caminhar juntos”, pontua.
A revitalização do espaço — com iluminação, limpeza, acessibilidade e infraestrutura — também foi decisiva.
“O medo se espalha mais rápido do que a paz. Quando o espaço é bem cuidado, iluminado e ocupado, ele comunica segurança.”
Resultados visíveis — e emocionantes
Um dos dados mais simbólicos do projeto é simples e poderoso: nenhuma ocorrência policial foi registrada durante o evento.

Mais do que números, porém, ficam as imagens — famílias inteiras, crianças brincando, idosos dançando, artistas locais se apresentando e comerciantes gerando renda.

“Teve momentos em que quase chorei”, confessa o major.
“Depois de tanta dificuldade, ver aquilo acontecer, ver as pessoas felizes, é a sensação de missão cumprida. Fazer segurança pública também é isso.”
Um modelo para o futuro da cidade
Para o coordenador do projeto, o PM no Pôr do Sol não deve ser um evento isolado, mas um modelo replicável em outros espaços da cidade — bairros, distritos e praças públicas.
“A ideia nunca foi que a Polícia Militar fosse a promotora eterna. Nosso papel é mostrar que é possível, abrir caminhos, gerar energia e motivar outras instituições a ocuparem a cidade.”
O resultado desejado é claro:
“Uma cidade em paz, harmônica, que valoriza o cidadão e onde as pessoas não tenham medo de viver os espaços públicos.”
Segurança também passa pela beleza
Ao final, o major resume o espírito do projeto com a mensagem que virou slogan desta edição:
“Com toda segurança, o pôr do sol mais bonito da Bahia.”
Uma frase que traduz mais do que um evento — traduz uma visão de cidade onde segurança, cultura e convivência caminham juntas, e onde o pôr do sol deixa de ser apenas paisagem para se tornar símbolo de pertencimento, confiança e transformação urbana.
(Maria Clara)