
Padre Carlos
As informações que motivam este artigo, especialmente as declarações públicas e o contexto envolvendo o Big Brother Brasil 2026, foram extraídas do site Bahia Notícias, veículo de reconhecida credibilidade no jornalismo baiano. A partir desses dados, cabe aqui uma reflexão crítica e opinativa sobre autoria, memória cultural e responsabilidade pública.
Há músicas que ultrapassam o tempo, o ritmo e o carnaval. Tornam-se símbolos culturais, marcas identitárias de um povo. “Faraó (Divindade do Egito)” é uma delas. Hino do samba-reggae, trilha sonora da afirmação negra, da Bahia e do Brasil que ecoou para o mundo. Mas todo hino tem origem. E toda origem tem autor.
A canção foi composta em 1986 por Luciano Gomes, jovem compositor baiano, criada para o Olodum, em um contexto de efervescência cultural, política e racial. “Faraó” nasceu como grito de identidade, resistência e ancestralidade africana, muito antes de ganhar projeção nacional e internacional na voz potente de Margareth Menezes. Esse dado não é detalhe: é fundamento histórico.
Segundo relato publicado pelo Bahia Notícias, a música voltou ao centro do debate após ser cantada por participantes do Big Brother Brasil 2026, momento em que a cantora e ministra da Cultura, Margareth Menezes, agradeceu nas redes sociais pela lembrança, referindo-se à obra como “minha música”. Foi esse gesto que despertou atenção e incômodo em parte do público, artistas e leitores atentos à história da música brasileira.
O desconforto não é pequeno nem irrelevante. Ele emerge quando, décadas depois, uma canção de autoria reconhecida passa a ser tratada publicamente como propriedade individual de quem a interpretou. Não se trata de negar a importância da intérprete — seria injusto e desonesto. Margareth Menezes foi, sim, decisiva para popularizar “Faraó”, levando-a a palcos globais, transformando-a em clássico do Axé Music e do Carnaval baiano. Mas interpretar não é o mesmo que criar.
Quando uma figura pública — ainda mais ocupando o cargo de ministra da Cultura — se refere a uma obra sem explicitar sua autoria, as palavras deixam de ser apenas espontâneas. Tornam-se simbólicas. Tornam-se políticas. E exigem cuidado redobrado, sobretudo em um país marcado por apagamentos históricos de compositores negros, periféricos e nordestinos.
A música brasileira carrega uma longa história de invisibilização autoral. Muitos criadores ficaram à sombra de intérpretes consagrados. Por isso, o zelo com a autoria não é preciosismo: é justiça cultural. É reparação simbólica. É respeito à criação intelectual.
“Faraó” não é propriedade individual de quem a cantou, por mais brilhante que tenha sido a interpretação. Ela pertence à história da música brasileira, mas tem assinatura. Tem nome. Tem origem. Chama-se Luciano Gomes.
O episódio relatado pelo Bahia Notícias apenas reacende uma discussão antiga, porém necessária: quem ganha visibilidade com a cultura? Quem é lembrado? Quem é esquecido? E qual o papel das autoridades culturais na preservação da memória e da verdade histórica?
Valorizar Margareth Menezes não exige silenciar Luciano Gomes. Pelo contrário: engrandece ainda mais sua trajetória reconhecer publicamente o autor da obra que ela ajudou a eternizar.
No Brasil, onde a cultura muitas vezes é consumida sem memória, lembrar o autor é um ato político. É afirmar que a arte não nasce do nada. Ela nasce de gente, de contexto, de luta e de talento que merece ser nomeado.
“Faraó” continua sendo um hino. Mas hinos também têm autoria. Ignorá-la é permitir que o sucesso, mais uma vez, apague a origem.




