
Por Padre Carlos
Jamais pensei que um dia estaria a elogiar Aécio Neves e, mais ainda, o próprio PSDB — este partido que por décadas se encantou com a ultra-direita e que se afastou tanto da verdadeira social-democracia que virou sinônimo de direita liberal e centro-direita conservadora. Durante muitos anos, a legenda, em vez de defender um projeto social-democrático robusto, abraçou o mercado acima dos direitos sociais e, em muitos momentos, pareceu perder o norte em meio à polarização furiosa que tomou conta da política brasileira.
A polarização e o ódio pelo PT e seus adversários empurraram o debate político para extremos, onde qualquer posicionamento de equilíbrio era tachado de fraco ou traidor. Mas, confesso, senhores, que hoje eles me surpreenderam — e com razão.
O presidente nacional do PSDB e deputado federal Aécio Neves divulgou, em nota oficial assinada pelo partido, uma posição pública firme contra a ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela, que incluiu a captura de Nicolás Maduro. Na nota, o PSDB afirma que “repudia a invasão” e que a violação da soberania de um país e o uso da força como instrumento político são inaceitáveis sob nenhuma circunstância”. Reforça ainda que “o respeito à autodeterminação dos povos é um valor essencial para todas as nações que defendem a democracia, a paz e o direito internacional”.
O que faz essa postura ser relevante — e até surpreendente — é que ela emana de um partido historicamente visto como mais alinhado ao Atlântico Norte e às visões liberais da política externa, e não necessariamente crítico de intervenções militares. O PSDB, que por vezes aderiu a lógicas mais pragmáticas ou até ideológicas de política externa, desta vez chocou parte do espectro político brasileiro ao se posicionar claramente contra o uso da força como ferramenta de política internacional.
Importante também é o fato de a nota deixar claro que essa posição não significa qualquer apoio ao regime autoritário de Maduro, que de fato foi responsável por graves violações de direitos humanos, destruição de instituições democráticas e empobrecimento do povo venezuelano. Essa distinção é essencial, porque demonstra que o PSDB consegue separar, nesta conjuntura, o repúdio legítimo a um regime de abuso interno da crítica à intervenção externa que também ameaça o princípio da soberania nacional.
Esse gesto — por mais tardio que seja — me leva a reconhecer que o PSDB, ainda que tardio em rever suas convicções, pode estar redescobrindo a importância de princípios democráticos universais como soberania, autodeterminação e respeito ao direito internacional. Não se trata de concordar com Maduro — que jamais deveria ser romantizado ou desculpado por seus crimes — mas de afirmar que a resposta a ditaduras ou crises humanitárias não deve vir de fora com armas, mas sim de um caminho político interno, legitimado por negociadores e instituições democráticas.
Ao PSDB, hoje, cabe um crédito por essa palavra firme — mesmo que tardia — contra a intervenção estrangeira. E a todos nós, um lembrete: na política contemporânea, onde extremos tentam sempre ditar a agenda, defender princípios democráticos básicos é um ato de coragem e coerência.
Minha mensagem ao Aécio e ao PSDB: continuem firmes na defesa da soberania dos povos, da democracia como baluarte universal e da solução política negociada para crises complexas como a da Venezuela. A política responsável honra os princípios antes de abraçar interesses imediatistas.




