
Por Padre Carlos
Há crimes que não terminam quando cessam os batimentos do coração da vítima. Eles continuam pulsando na memória coletiva, como uma ferida aberta que se recusa a cicatrizar. O assassinato de Sashira Camilly Cunha Silva é um desses crimes. Um caso que não pede apenas justiça — exige consciência, coragem institucional e respeito à dor humana.
Sashira tinha 19 anos. Era estudante de Engenharia Civil. Tinha projetos, rotina, sonhos ainda em construção. Sua vida foi interrompida de forma brutal em setembro de 2021, em um crime que, segundo a investigação, foi premeditado, marcado por ciúmes, controle e violência de gênero. Nada disso é abstrato. Nada disso é distante. Tudo isso tem nome, rosto, história — e consequências que ainda ecoam em Vitória da Conquista.
O julgamento de Rafael de Souza Lima, acusado pelo assassinato, está marcado para o dia 10 de fevereiro, em Feira de Santana, após decisão de desaforamento. A lei permite. O Código de Processo Penal prevê. A técnica jurídica encontra justificativa formal. Mas a pergunta que ecoa — incômoda, necessária, moral — é outra: e a justiça, onde fica quando se afasta do lugar da dor?
Transferir o júri pode ser um ato legal. Mas não é neutro. Não é indiferente. Não é inofensivo. Para a família de Sashira, a decisão impõe uma nova violência: percorrer mais de 400 quilômetros para acompanhar o julgamento da filha que viveram, criaram e perderam em Vitória da Conquista. A justiça, que deveria acolher, distancia. A instituição, que deveria proteger, impõe obstáculos.
O corpo de Sashira foi encontrado, em um terreno afastado, já em condições que dispensam descrição — porque a dignidade da vítima exige silêncio respeitoso. O que importa não é o detalhe cruel, mas o contexto estrutural: mais um caso de feminicídio, mais um crime atravessado por relações de poder, posse e violência contra a mulher. Mais um nome que se soma a uma estatística que insiste em crescer no Brasil.
A retirada do julgamento da cidade onde o crime ocorreu pode até buscar imparcialidade. Mas também produz apagamento simbólico. Afasta o crime da comunidade que o sentiu. Dilui a responsabilidade social. Reduz o impacto pedagógico da justiça pública. Porque julgar também é dizer, em voz alta: isso não será tolerado aqui.
Há algo profundamente errado quando a técnica jurídica se afasta da sensibilidade humana. Quando o formalismo supera a empatia. Quando o medo de tumulto pesa mais que o direito das famílias à presença, à memória e ao reconhecimento público da violência sofrida.
Este não é um texto contra a lei. É um texto em defesa da justiça com rosto humano. Justiça que não se limita ao rito, mas considera o contexto. Justiça que entende que crimes de grande repercussão exigem não apenas segurança institucional, mas também coragem moral.
O julgamento de Sashira Camilly não pode ser apenas mais um processo na pauta do tribunal do júri. Ele precisa ser um marco. Um lembrete de que feminicídio não é um crime privado, não é um drama doméstico, não é um excesso passional. É uma violação extrema dos direitos humanos. É um ataque à sociedade inteira.
Que o dia 10 de fevereiro não seja apenas uma data no calendário jurídico. Que seja um dia de afirmação da vida, da memória e da dignidade. Que a distância física imposta à família não se transforme em distância moral da sociedade.
Porque quando a justiça anda longe do lugar do crime, quem corre o risco de se perder não é o processo — é o sentido mais profundo de justiça.
(Padre Carlos)




